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Comunhão Anglicana

   

 ROWAN WILLIAMS, ARCEBISPO DE CANTUÁRIA, COM O BISPO ROBINSON CAVALCANTI 

 

ROWAN WILLIAMS

ARCEBISPO DE CANTUÁRIA

 

 

HECTOR ‘TITO’ ZAVALA

BISPO PRIMAZ

 

 

DOM EDWARD ROBINSON DE BARROS CAVALCANTI

BISPO DIOCESANO

"In Memoriam"

 

 

DOM EVILÁSIO TENÓRIO

BISPO SUFRAGÂNEO

2ª REGIÃO ECLESIÁSTICA

 

 

DOM  FLÁVIO ADAIR

BISPO SUFRAGÂNEO

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Home Biblioteca Artigos de Clérigos Avancemos para o Alvo

Avancemos para o Alvo

Artigo do Rev. Maurício Amazonas OSE


...Esquecendo-me das coisas que para trás ficam, avanço para as que estão diante de mim, prosseguindo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus ( Apóstolo São Paulo , Carta aos Filipenses 3.13-14)

  

Diante das recentes publicações de análises feitas sobre a situação atual e perspectivas quanto ao nosso futuro diocesano, gostaria, eu também, de emitir minha opinião sobre as mesmas, oferecendo uma contribuição que busca ampliar o debate. Como todas as que já foram escritas (e espero que outras mais venham a público), esta se propõe a somar esforços na reflexão, procurando meios para elucidar a nossa visão de conjunto e oferecer uma solução coletiva e comunitária!

A princípio, concordo com a análise feita no tocante às coisas que nós ainda não conseguimos alcançar. Mas é preciso deixar muito bem claro que ela é uma análise crítica apontando apenas as nossas distorções e distanciamentos de um determinado ideal. Se considerarmos a dinâmica vida desta Igreja, concordaremos que, em curto espaço de tempo, avançamos múltiplos e largos passos nas conjunturas local, nacional e internacional. Galgamos visibilidade, respeito, reconhecimento e apoio à nossa causa. Tudo isso foi conquistado com oração, suor e lágrimas, sabendo a quem servimos e para onde vamos!

Contudo, gostaria de dizer que não simpatizo com algumas imagens retóricas (às quais chamarei aqui de figuras analíticas) que foram sugeridas pelos textos até agora. Não sou partidário delas porque as julgo antiquadas para o nosso momento e para nossa história como Igreja de Cristo, povo da Nova Aliança e da Dispensação da Graça. Gostaria de lembrar que não mais estamos no Éden, nem na Torre de Babel, nem na Arca de Noé. Com isto todos nós haveremos de concordar. Mas também gostaria de lembrar que não mais estamos no Egito, nem no Deserto, nem na Terra dos Cananeus. Não fomos, não somos e jamais seremos Israel. Nem mesmo que seja o Novo Israel e nem o Israel Espiritual .

A Boa Nova para todos os povos da terra é que já se deu a Natividade e o Advento, bem como o Ministério, Paixão, Morte, Ressurreição e Ascensão do Nosso Senhor Jesus Cristo. O Espírito Santo já desceu e batizou a Sua Igreja. Estamos há cerca de 2 mil anos destes eventos e há aproximadamente 3 mil e quatrocentos do Êxodo! É preciso lembrar que somos a Igreja de Cristo. Ela é constituída por judeus e gentios, mas não é Israel. Deus, ao destinar a sua multiforme graça para salvar a humanidade, de ambos os povos, judeus e gentios, fez um só povo (Ef 2.14-19) e o denominou de Igreja (1Pe 2.9-10). (Seria a Igreja um ‘terceiro' povo?) Desta sorte, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram e eis que tudo se fez novo (2Co 5.17) O judeu convertido é um cristão. O gentio convertido é também um cristão (Gl 3.28). Eis que Ele fez novas todas as coisas (Ap 21.5). Eis o povo da Nova Aliança! Eis a Igreja de Cristo! É isto o que nós somos! Necessário se faz lembrar as palavras do profeta Isaías: Não vos lembreis das coisas passadas, nem considereis as antigas. Eis que faço uma coisa nova, que está saindo à luz; porventura não o percebeis? (Is 43.18-19a), bem como das palavras angelicais na manhã da Ressurreição: Ele não está aqui, mas vai adiante de vós (Mt 28.6-7). Olhemos para frente e sigamos nas pisadas do nosso Mestre, pois Ele é o novo e vivo caminho (Hb 10.20)!

A narrativa do Êxodo é um importante testemunho da ação de Deus no meio e na história do povo do Primeiro Pacto. Porém não acho que devamos nos utilizar desse exemplo como uma categoria de análise para a Igreja. (Digo categoria de análise por não encontrar um termo mais apropriado para comunicar minha intenção). Pois, sendo assim, dos 600 mil homens, afora mulheres, crianças e velhos (Êx 12.37), todos terão de morrer no deserto (1Co 10.5). E, daqueles que saíram do Egito, somente dois, Josué e Calebe, entrariam na Terra Prometida (Nm 14.30-35; Dt 1.36; Js 14.6-14). Nem Aarão e nem mesmo Moisés entrariam na terra (Nm 20.24; Dt 32.50-52; 34.4). São quarenta anos rodando e pisando no próprio rastro (Dt 29.5). Isso nos deixaria por demais deprimidos e profundamente desanimados para continuarmos lutando por algo cuja posse jamais tomaríamos.

Outra razão para recusar esta categoria de análise é que nós estaríamos por demais ‘fulanizando' o debate. Chegou-se até mesmo a afirmar que sem Moisés não haveria o Êxodo. Isso me parece o mesmo que afirmar que sem a bem-aventurada Virgem Maria não haveria o nascimento do Senhor Jesus Cristo, Redentor nosso. Eu afirmo que somente não haveria Êxodo se não houvesse a intervenção de Deus na História. Se não fosse Moisés, seria qualquer outra pessoa suscitada e capacitada por Deus. Da mesma forma que se não fosse a Virgem de Nazaré, seria outra. Pois se a mãe do Salvador afirmou: Eis aqui a serva do Senhor, cumpra-se em mim conforme a tua Palavra (Lc 1.38), saibamos que, conforme nos diz o Apóstolo São Paulo, Deus é quem opera em vós tanto o querer quanto o efetuar, segundo a Sua vontade (Fp 2.13). O que podemos afirmar, peremptoriamente, é: Somente sem Deus e sem Cristo é que não haveria Êxodo e nem Redenção!

Estamos ligados a Cristo Jesus, que nasceu da semente de Abraão, e, portanto, de Israel, mas o nosso nascedouro, como Igreja, se deu no Pentecostes e, a partir de então, esta é a nossa história. Dessa forma, somos o movimento de seguimento de Jesus, recebendo e influenciando a História no decorrer de quase 2 mil anos. Somos a Igreja de Cristo vivendo e sobrevivendo hoje no século XXI.

A Igreja não é mais a Igreja Primitiva e nem tampouco a Medieval, mas a Igreja Contemporânea. Devemos analisar a nossa Teologia e a nossa História à luz do evento Cristo, narrado nas páginas do Evangelho e na Doutrina dos Apóstolos, bem como a partir do ensino e da interpretação dos Santos Padres. Podemos e devemos tirar lições proveitosas do Movimento da Reforma, dos Movimentos Avivalistas e das Sociedades Missionárias.

Vamos considerar a Igreja dentro do processo da História da Civilização. Imaginemos que esta Igreja seja semelhante a um veículo e que nós precisamos avançar na construção, na conquista e na consolidação desta Igreja no presente e no futuro. Este veículo possui um pára-brisa que nos possibilita ver adiante, tanto horizontal quanto verticalmente. Este mesmo veículo deve ser equipado com retrovisores interno e externos que nos possibilitem ver o que para trás ficou. Toda e qualquer pessoa que tenha tido a experiência de conduzir veículos automotores há de convir que jamais o retrovisor poderá ser maior que o pára-brisa. A análise do passado (retrovisor) não poderá ofuscar a constatação do presente e nem a visão do futuro (pára-brisa). Precisamos ter clareza e transparência de visão para continuarmos na direção correta e segura. A Igreja já sabe quem é o Caminho e já sabemos também para onde vamos! Nesta estrada temos placas de instrução e orientação. Aqui é por demais valioso observarmos os conselhos contidos nas Epístolas Católicas e Paulinas, bem como na Revelação de São João. É no Apocalipse que está o destino final desta viagem da Igreja pela História. Não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a futura (Hb 13.14), uma vez que a nossa cidade está nos céus, de onde também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo (Fp 4.20). Somos peregrinos na História e no mundo. A Igreja marcha destemidamente para a Cidade Celestial. Quer nas lutas, quer nas provas... !

Todos os feitos do passado são marcos importantes dos quais devemos tirar ricas e profundas lições para a caminhada. Contudo, o nosso modelo não está no passado ou no Êxodo, mas no futuro, no Apocalipse ou Revelação do Senhor Jesus Cristo. Os marcos estão para trás, mas o modelo a ser perseguido está na frente, no alto e adiante! Lá está o futuro esperançador para a Igreja do Cristo vivo, triunfante e vencedor, o Rei dos reis e o Senhor dos senhores. Lá está toda a coreografia, toda a liturgia, toda a reverência dos anjos e dos anciãos, todo o louvor de todas as tribos e povos e línguas e nações. Lá estão todos os cânticos – desde o Cântico de Moisés até o Cântico do Cordeiro (Êx 31.30-32.43; Ap 15.3) – e todas as ações de graças a Deus pelo triunfo da vida e o cessar de toda lágrima e toda dor (Ap 7.17; 21.4)!Lá está a consolidação da vitória final de Cristo sobre o Mal (Mt 6.13)!

Esta foi sempre a esperança que animou a Igreja em todos os tempos. Para adiante e para o alto. É lá onde Cristo está assentado (Santo Estêvão, na hora de sofrer o seu martírio, O viu em pé, conforme Atos 7.56), coordenando a vida, o ministério, a missão e o avanço de Sua Igreja aqui na terra, que caminha em direção à glória futura. Claro que enquanto o céu não vem ou enquanto a Igreja não chega à Cidade Celestial, vamos vivendo e fazendo a história dentro das condições objetivas geradas pelas circunstâncias do mundo que nos cerca.

Precisamos compreender aquilo que, segundo me parece, foram as quatro razões principais que justificaram a Escritura do Novo Testamento, a saber: 1) Suscitar e alimentar a fé no coração da Igreja nascente; 2) Oferecer ensinamentos éticos e doutrinários às pessoas que estavam no seguimento de Jesus de Nazaré; 3) Interpretar o evento Cristo à luz do Antigo Testamento; 4) Combater as heresias gnósticas, especialmente no que concernia à pessoa de Cristo, à salvação humana e aos mistérios revelados à Igreja através dos Sacramentos. Escrever sempre foi um magistério dos Apóstolos, dos Bispos e dos Santos Padres, bem como dos Reformadores e de toda liderança que esteve à frente da Igreja.

A literatura apocalíptica é o tipo mais popular de literatura daquela época e daquele povo. Seria, digamos assim, a literatura de cordel primitiva, pois estava na boca do povo comum e no seu cotidiano. – “Sabe o que foi que o profeta escreveu à Igreja de Tiatira?”. – “Rapaz, muito mais forte e mais bonita foi a Carta enviada à Igreja de Laodicéia...”. Vejamos que as Cartas são endereçadas às Igrejas da Ásia e não às tribos de Israel. Mesmo assim, o Apocalipse é um dos livros que mais fazem referências ou alusões ao Antigo Testamento.

Não podemos nos deixar abater. Problemas e tribulações sempre se fizeram e estiveram presentes na História da Igreja. Não somos, de modo algum, mais privilegiados que os nossos irmãos e irmãs que nos antecederam. A promessa que Cristo Jesus fez aos Seus discípulos foi de que as portas do inferno não prevaleceriam contra a Sua Igreja (Mt 16.16). Ele nos avisou que no mundo teríamos aflições, contudo, tivéssemos bom ânimo (Jo 16.33). Os Santos Apóstolos ensinaram e confirmaram a promessa de que o Cristo voltaria. A Parousia , termo que, ao se referir a Cristo, reserva-se apenas ao evento de Sua Segunda Vinda, é uma convicção que tem animado a Igreja e capacitado-a para enfrentar os ardis de Satanás (1Co 15.22-26; 1Ts 2.19; 3.13; 4.14-18; 2Tm 4.8; Tg 5.8). É a confiança de que o Espírito Santo está conosco (e em nós) que nos faz avançar em direção à Cidade Celestial, sabendo que Cristo vela por nós e nos alimenta com a esperança de Sua vinda gloriosa para reinar com aqueles e aquelas que foram remidos e redimidos pelo Sangue do Cordeiro. E, nesta expectativa, a Igreja tem respondido liturgicamente: Amém. Ora vem, Senhor Jesus! (Ap 22.20).

 

*Rev Maurício Amazonas, OSE
(Clérigo da Diocese Anglicana do Recife – DAR - Capelão do Seminário Anglicano Teológico – SAT/PE - Frade da Ordem Anglicana de Santo Estêvão, Mártir – OSE - Bacharel em Teologia pelo Seminário Teológico Congregacional do Recife – STCR - Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Federal Rural de Pernambuco – UFRPE - Mestrando em Teologia do Novo Testamento pelo Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil - STBNB)

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