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Home Biblioteca Artigos de Clérigos A Reforma, os Evangélicos e a Unidade da Igreja

A Reforma, os Evangélicos e a Unidade da Igreja

Artigo do Rev. Gustavo Leite Castelo Branco

 

A Reforma, os Evangélicos e a Unidade da Igreja: Como a Eclesiologia Calvinista pode contribuir com o Evangelicalismo Contemporâneo?


Rev. Gustavo Leite Castello Branco


Em um livro escrito em 1995 e intitulado Evangelicalismo e o Futuro do Cristianismo , Alister McGrath constata que, apesar do evangelicalismo continuar crescendo, está dividido sob vários títulos denominacionais. Ele também afirma que exatamente este fato representa uma ameaça para o futuro do evangelicalismo como um movimento cristão. A procura de um “antídoto” para essa tendência de constantes divisões entre os evangélicos, é expressa por McGrath nas seguintes palavras: “A estratégia mais importante para a conservação e manutenção de um senso de identidade evangélica e o redescobrir das raízes do movimento, especialmente no Novo Testamento e na Reforma do Século XVI” (115).

Portanto, neste breve trabalho, procuramos mostrar, a título de exemplificação, como a redescoberta de algumas verdades contidas na eclesiologia de João Calvino pode ser bastante saudável para o evangelicalismo como um todo. Entretanto, este não é um trabalho sobre o modelo de Calvino para administração de uma igreja em particular. Ao invés disso, estamos interessados aqui na eclesiologia calvinista em um sentido mais abrangente, isto é, como ele entendia a natureza da Igreja, e mais, interessante, como isso possa ser, este é um trabalho sobre a visão positiva de Calvino a cerca da catolicidade da Igreja.

Em primeiro lugar nós devemos dizer que João Calvino desenvolveu o que McGrath chama de “definição minimalista da Igreja” (Introduction 482). Para ele, “onde quer que nós presenciemos a Palavra de Deus sendo puramente anunciada e ouvida e os sacramentos sendo administrados de acordo com a instituição de Cristo, não devemos duvidar que ali uma igreja de Deus existe” (citado em McGrath, Reader 482). Portanto, para Calvino, os dois únicos elementos fundamentais para caracterizar uma verdadeira expressão da Igreja de Cristo são: a correta pregação da Palavra de Deus e a correta administração dos sacramentos. Por um lado isto nos mostra a tendência dos reformadores de definir a igreja em termos de sua fidelidade para com o ensino dos apóstolos e para com as Escrituras em si mesmo, ao invés de o fazê-lo por sua continuidade institucional (McGrath, Reader 483). Por outro lado, tal posição implica necessariamente que nenhuma outra questão deveria ser motivo para a quebra de unidade na igreja. Como o próprio Calvino escreveu em suas famosas Institutas:


“Quando a pregação do Evangelho e reverentemente ouvida e os sacramentos não são negligenciados, então em tal ocasião, nenhuma forma falsa ou ambígua de igreja é vista; e a ninguém é permitido ignorar sua autoridade, ou desprezar suas advertências, resistir seus conselhos, ou fazer pouco de suas reprimendas – muito menos se separar dela e causar dano a sua unidade” (citado em McGrath, Reader 483).


Nossa segunda observação sobre a eclesiologia de Calvino clarificara o argumento acima ainda mais. Calvino também diferenciou a “igreja visível” do corpo dos eleitos conhecido apenas por Deus, isto é, da “igreja invisível” . Na verdade essas não são duas igrejas para Calvino, mas dois aspectos da mesma Igreja Una e Católica de Cristo. Como ele mesmo afirmou:


“As Sagradas Escrituras falam sobre a Igreja de duas maneiras. Algumas vezes, pelo termo “igreja” [as Escrituras], se referem àquela que, na verdade, está na presença de Deus, dentro da qual nenhuma pessoa é recebida senão aquelas que são filhas de Deus pela graça da adoção e que são verdadeiras membras de Cristo pela santificação do Espírito Santo... Frequentemente, entretanto, o nome “igreja” designa a totalidade dos homens que, espalhados pela terra, professam adorar um só Deus e Cristo” (Calvin, 1021).


O aspecto invisível se refere àqueles que são realmente salvos por Cristo, incluindo os verdadeiros cristãos viventes e os eleitos que já morreram. A “igreja visível” é aquela que todos os humanos podem conhecer e na qual “estão misturados muitos hipócritas que não têm nada de Cristo, senão o nome e aparência exterior” (Calvin, 1021).

Assim, esta visão dos dois aspectos da Igreja assume o entendimento de Santo Agostinho para quem a mesma é um “corpo misto”, onde o trigo e o joio crescem juntos, ao mesmo tempo em que preserva sua santidade e necessária unidade (McGrath, Reader 467). A conseqüência de tal visão é clara. Ninguém deve dividir a igreja visível na expectativa de que o “novo ramo” venha a ser “a nova expressão da Igreja de Cristo” , nem ninguém deve esperar perfeição dentro da igreja.

Finalmente, como o Reitor Tulloch da University of Saint Andrews afirma em referência ao principal trabalho de Calvino: “Em nenhum aspecto, talvez, as Institutas sejam mais marcantes do que em um certo tom de compreensividade e catolicidade, o qual para muitos parece estranhamente relacionado com o seu nome (o de Calvino)” (citado em History of the Christian Church). E ainda, no mesmo artigo: “nada pode ser mais verdadeiramente católico do que a descrição feita por Calvino da Igreja histórica. Ela nos lembra das mais finas passagens em São Cypriano e Santo Agostinho” (History of the Christian Church).

Esta “dimensão católica” na eclesiologia de Calvino nos lembra que ele era muito cauteloso contra futuras divisões na Igreja. Como McGrath coloca ao comentar sobre as duas características de uma verdadeira igreja na definição minimalista de Calvino acima apresentada:


“Já que a Igreja Católica Romana não se conformava nem com esta definição minimalista da igreja, os evangélicos estavam perfeitamente justificados em deixá-la. E , na medida em que as igrejas evangélicas se conformassem a esta definição de uma igreja, não haveria nenhuma justificativa para futuras divisões dentro delas” (McGrath, Introduction 482-483).


De fato os reformadores da assim chamada “primeira geração” , como Lutero, por exemplo, acreditavam realmente que uma reunificação deveria acontecer assim que a Igreja de Roma reconhecesse seus erros nos pontos fundamentais da fé (McGrath, Introduction 482). A propósito, nesta questão da diferenciação entre os aspectos essenciais e secundários da fé, Calvino é novamente digno de ser citado:


“Algumas deficiências podem ser encontradas tanto na administração da doutrina como dos sacramentos, mas isso não nos deve privar de comunhão com esta igreja. Pois nem todos os artigos da verdadeira doutrina são de igual peso. Alguns são tão necessários de se saber que eles devem ser certos e inquestionáveis por qualquer um como próprios à religião, tais como: Deus é um, Cristo é Deus e o Filho de Deus; nossa salvação depende da misericórdia de Deus; e outros do tipo. Existem outros [artigos de doutrina] disputados entre as igrejas os quais ainda não quebram a unidade da fé... Eu não estou perdoando o erro, não importa o quanto insignificante este possa ser, nem desejo encorajá-lo. Mas eu estou dizendo que nós não deveríamos abandonar uma igreja em virtude de outras discordâncias menores, se esta mantém-se firme á doutrina sobre os essenciais da piedade” (Citado em McGrath, Reader 482).


Como podemos ver, mesmo que alguém questione sobre o que Calvino considerava “uma correta administração dos sacramentos” , este alguém será forçado a admitir que Calvino estivesse aberto a tolerar até discordâncias sobre a “forma” destes por amor a unidade da Igreja. Além do mais, é bom lembrarmos que “sacramentos” para Calvino, assim como para o resto dos reformadores eram somente dois, isto é, a Ceia do Senhor e o Batismo. Este fato reduz, ainda mais, o que entendiam por essencial e amplia a margem de tolerância que deveríamos ter entre nós, evangélicos, de acordo com o reformador de Genebra.

Diante de todos estes argumentos nós devemos concluir que o evangelicalismo contemporâneo tem algo a aprender de Calvino. Como Gabriel Fackre, da Newton School of Theology, disse: “o evangelicalismo contemporâneo está longe de ser um império indiviso” (citado em McGrath, Future of Christianity 107). Além do mais, evangélicos, em geral, não estão muito preocupados em se envolver em debates sobre quais são os essenciais da fé que não podem ser dispensados e quais são aqueles pontos que deveriam ser tolerados por amor a unidade. Igrejas têm sido divididas em virtude de questões morais menores, formalidades e orgulho, seguindo a fragmentação tão característica de nossa era.

Nós acreditamos, assim como McGrath, que o evangelicalismo tem um importante papel a desempenhar no mundo pós-moderno. Nós temos uma mensagem que se aplica ao desespero das pessoas e trás esperança “de fora” para as suas vidas. Esta é a mensagem da cruz; as Boas Novas de Jesus Cristo, o Deus encarnado. Entretanto, se queremos que o mundo ouça esta verdade absoluta , precisamos mostrá-la através de nossas vidas como indivíduos, e na vida corporativa de nossas igrejas. Uma verdade absoluta que, ao mesmo tempo, é uma verdadeira mensagem de amor, tem que produzir dentre e entre nós concordância e respeito.

Como McGrath coloca: “Diversidade, isso deve ser enfatizado, não significa e não precisa significar que as coisas estão caindo aos pedaços. Entretanto, existe um perigo real de que a falta de um foco evangélico ou de preocupações comuns nos guie para o faccionalismo” (The Future of Christianity, 108). Nós precisamos assumir a mesma atitude cautelosa que Calvino, em meio à luta contra as heresias, teve, e precisamos lembrar que faccionalismo também é heresia. Olhando para a Reforma, para a nossa história como movimento evangélico e para as Escrituras, nós precisamos ser capazes de responder a pergunta: O que é isso mesmo que nos faz ser cristãos evangélicos?

 

Referências Bibliográficas:

Calvin, John. Ed. John T. McNeill. Trans. Ford Lewis Battles. Institutes of the Christian Religion . Vol. 2. Philadelphia : Westminster Press, 1975.

“History of the Christian Church. Volume VIII: Modern Christianity”. Christian Classics Etherial Library . September 07 2006

<http://www.ccel.org/ccel/schaff/hcc8.iv.xiii.ii.html?highlight=visiblechurch,calvin>

McGrath, Alister E. Christian Theology: An Introduction . 3 rd ed. Malden : Blackwell, 2005.

---, ed. The Christian Theology Reader . 2 nd ed. Malden : Blackwell, 2001.

---. Evangelicalism & the Future of Christianity. Illinois : InterVastry, 1995.

 

Todas as citações, neste trabalho, são traduções das fontes em Inglês.


Rev. Gustavo Leite Castello Branco
é Diácono Permanente na Diocese do Recife; estudante de tempo integral no Programa MAR (Master of Arts in Religion), Mestrando em História da Igreja, no Trinity School for Ministry, em Ambridge, PA.

 

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