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 ROWAN WILLIAMS, ARCEBISPO DE CANTUÁRIA, COM O BISPO ROBINSON CAVALCANTI 

 

ROWAN WILLIAMS

ARCEBISPO DE CANTUÁRIA

 

 

HECTOR ‘TITO’ ZAVALA

BISPO PRIMAZ

 

 

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Home Artigos Internacional A Contextualização do Evangelho

A Contextualização do Evangelho

Pensamento Internacional


C. René Padilla (*)

O Evangelho é a boa notícia que Deus pôs ao alcance do ser humano. Para fazê-lo, se inseriu na história humana pela brecha aberta na realidade espácio-temporal por meio de Jesus Cristo. Sé é verdade que Deus se havia manifestado de muitas maneiras no passado, na culminação dos tempos nos visitou na pessoa do seu próprio Filho – a Palavra feita homem – em um lugar e um momento particulares. Se poderia dizer que Deus se contextualizou em Jesus Cristo.

A encarnação torna óbvio o acercamento de Deus à revelação de si mesmo e dos seus propósitos: Deus não proclama sua mensagem aos gritos desde os céus; Deus se faz presente como homem no meio da humanidade. O clímax da revelação de Deus é Emanuel. E Emanuel é Jesus, um judeu do primeiro século. De maneira definitiva, a encarnação demonstra que a intenção de Deus é se revelar dentro da situação humana. Em virtude da natureza própria do Evangelho, somente conhecemos o Evangelho como uma mensagem contextualizada na cultura.

O Evangelho e a Cultura

(...) O cristianismo comum e corrente geralmente dá por sentado que em sua leitura da Bíblia pode prescindir por completo da hermenêutica. Se acerca da Bíblia como se esta tivesse sido escrita por um só autor humano e em circunstâncias históricas iguais às suas próprias. Crer ter acesso direto à mensagem revelada nas Sagradas Escrituras, e inclusive suspeitar de todo esforço que se faça para entender essa mensagem à luz do seu contexto histórico original (...).

Esta maneira de ler a Bíblia reflete um conceito particular da revelação segundo a qual esta consiste fundamentalmente em afirmações doutrinárias facilmente traduzíveis dos idiomas originais (hebraico, aramaico e grego) ao idioma do leitor. Se supõe que baseado na Bíblia traduzida, e sem necessidade de um estudo histórico, o leitor pode entender sem dificuldade o sentido do que lê, e, inclusive, chegar a uma sistematização da mensagem bíblica, sistematização que para ele será equivalente ao próprio Cristianismo.

Segundo esse enfoque, o conhecimento é fundamentalmente racional e se comunica diretamente da mente divina à mente humana por meio do livro sagrado. A percepção da realidade se realiza por meio de conceitos que se expressam em palavras. Se se deixa lugar para a teologia, é para uma teologia cuja tarefa básica é a sistematização das afirmações bíblicas quanto a Deus, ao ser humano e às relações entre os dois.

(...) A matéria-prima da teologia não são conceitos abstratos, senão uma mensagem relativa a eventos históricos cuja narrativa e interpretação levam as marcas das culturas semita e greco-romana em que viveram os autores bíblicos. Sua tarefa inicial é exegética, e a exegese requer a construção de uma ponte entre o intérprete e os autores bíblicos, mediante o método histórico, cujo pressuposto básico é que a Palavra de Deus não pode ser entendida aparte do ambiente cultural e linguístico em que originalmente se deu.

(...) O fato é que há três fatores que condicionam a compreensão da Palavra de Deus: a atitude do intérprete frente a ele, sua tradição eclesiástica e sua cultura.

1. A Atitude do Intérprete

A atitude do intérprete frente a Deus é decisiva para a compreensão da Palavra. A revelação bíblica tem a ver com eventos históricos e sua interpretação por parte dos autores bíblicos. Portanto, seu estudo inclui a investigação histórica. Mas, também, tem o propósito de convencer aos seres humanos do seu pecado e da graça de Deus, a fim de que entrem em uma relação de comunhão pessoal com Ele. Consequentemente, para compreendê-la não basta que o intérprete se familiarize com a situação histórica original: tem que fazer sua a perspectiva dos escritores bíblicos, que é a perspectiva de pessoas em comunhão com Deus.

Como assinalou Paul Minear, se há uma Sitz im Leben (situação de vida) original, há, também, uma Sitz im Glauben (situação de fé) da qual o intérprete tem que tomar plena consciência. Por sua própria natureza, o conhecimento religioso abarca o histórico, o metafísico, o ético e o pessoal – “inclui elementos cognitivos que são objetivamente verdadeiros; ao mesmo tempo que os aspectos subjetivos e emotivos do compromisso pessoal”. Não há conhecimento de Deus que não vá acompanhado pelo reconhecimento de que se foi conhecido por Ele.

2. A Tradição

É muito difícil que o intérprete se subtraia à influência da sua própria tradição eclesiástica em sua compreensão da Palavra. Se o propósito da revelação de Deus não foi a produção de um livro – A Bíblia – senão a formação de um povo – a Igreja – que seja portador da Palavra, se segue que não se pode por de lado da história da interpretação bíblica, que é a história das maneiras em que a Igreja tem entendido a revelação através dos séculos. Se deve reconhecer, sem dúvida, que com demasiada frequência, a tradição se converte (inclusive entre os que professam o principio da sola scriptura) em um fator de controle exegético, que impede que o intérprete escute a mensagem das Escrituras. Essa é a origem de muitas das características doutrinais que dividem os cristãos em “denominações”, cada uma das quais se considera superior às demais.

3. A Cultura do Intérprete

A compreensão da Palavra está condicionada pela cultura do intérprete. Isso não vive em um vazio, senão em uma situação histórica concreta, em uma cultura da qual deriva não somente seu idioma, senão também seus padrões de pensamento e conduta, seus métodos de aprendizagem, suas reações emocionais, seus valores, interesses e metas. A mensagem de Deus chega em termos de sua própria cultura, ou não chega. O conhecimento de Deus somente é possível enquanto a Palavra, por assim dizer, se encarna na situação do intérprete. Nas palavras de James D. Smart:

A interpretação não começa quando nos sentamos com o texto e alguns comentários para avaliar uma variedade de significados sugeridos. Começa antes que estejamos conscientes de fazer algo mais que ler as palavras. As ouvimos como pessoas que somos, e o sentido que tem para nós está determinada não somente pelas palavras, senão pelo caráter do contexto em que a recebemos. Ninguém tem acesso direto ao conteúdo das Escrituras, seja em virtude da perfeição da sua erudição, ou pelo poder da sua inspiração. Cada compreensão do texto e cada afirmação quanto ao seu significado é uma interpretação, e, no que pese a exatidão com que expresse o conteúdo do texto, jamais se pode igualar ao próprio texto.

 

Nota do Tradutor: A própria tradição (Ana)batista do autor concorre para que o mesmo não deixe claro a diferença entre Tradição e tradicionalismo, e não acrescente um ponto número 4. O Consenso dos Fiéis: quando, pela ação do Espírito Santo, a Igreja Cristã nos mais diversos lugares, culturas e épocas, entende algo da mesma maneira. Aqui entra os Concílios da Igreja Indivisa, e os pontos convergentes dos Pais da Igreja e dos Reformadores, bem como o Cânon Bíblico, as Doutrinas dos Credos, os Sacramentos e o Episcopado.

 

________________________

* C. René Padilla, equatoriano, doutor em Teologia pela Universidade de Manchester, Inglaterra, é um dos fundadores da Fraternidade Teológica Latino-Americana (FTL), e um dos principais pensadores da corrente da Missão Integral da Igreja, sendo um dos oradores principais do Congresso de Lausanne (1974). O presente texto é um capítulo do seu livro Missão Integral (Nueva Creación, Buenos Aires, 1986).

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