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 ROWAN WILLIAMS, ARCEBISPO DE CANTUÁRIA, COM O BISPO ROBINSON CAVALCANTI 

 

ROWAN WILLIAMS

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Home Artigos Clero Entre Sofias e Marias

Entre Sofias e Marias

 Pensamento do Clero 

 

Entre Sofias e Marias

 Revda. Jeane  Coelho 

O ano novo chegou.  Com ele, algumas tragédias causaram muita comoção, como foi a de Angra dos Reis.  Outras, como a superlotação das emergências públicas do Estado, como o Hospital da Restauração, já não produzem respostas pelo lugar comum que ocupam.  Não seria isto o “normal” dos grandes feriados?   Triste constatação.

Não se pode desconsiderar uma tragédia pelo simples fato de sua ocorrência diária, pois, uma outra maior estaria acontecendo: a indiferença com a dignidade humana.  Talvez algumas perguntas esclareçam mais a sua invisibilidade.  Que classe social constitui a maior parte de seus usuários?  Qual o plano de saúde que utilizam?   São conhecedores da Constituição Federal que garante a todos o direito à saúde?  Respostas que gestores e população necessitariam refletir.  Cabe, entretanto, a nós o não calar.  Eis, o caso:

No primeiro feriado de dezembro, uma usuária deu entrada no Agamenon Magalhães, já referenciada pelo Tricentenário, para sua emergência cardiológica.  Suspeitava-se de um princípio de infarto.  O seu nome era Maria.  A mesma aos 78 anos depois de um atendimento inicial, ficou a aguardar exames sentada em uma cadeira.  Constatou-se que não se poderia dar alta, pois, seu caso inspirava cuidado. 

Ao mesmo tempo, vários médicos trabalhavam incessantemente, pois, a demanda não parava de crescer.  Em circunstâncias bastante adversas e precárias corriam contra o tempo para prestar o atendimento.  Fato este complicado pela falta de leitos na UTI e pela inexistência de locais para colocar os pacientes.   Inclusive com a tarefa de decidirem quem passaria ou não para a sala de emergência.  Com certeza no juramento de Hipócrates aos quais fizeram não constava a “escolha de Sofia”, isto é, o decidir sobre a vida de alguém.

Depois de três dias e duas noites em uma cadeira plástica e sem ter onde reclinar a cabeça, a amada Maria passou mal e pode finalmente passar para a sala de emergência (a sua classificação de risco alcançou o “valor necessário” para tal).  Mas, o tempo de sua permanência naquela ante-sala da vergonha foi determinante para sua condição final.   Depois de 24 dias de resistência, a amada Maria faleceu.

O que pensar de tal situação?  Talvez usar o chavão: Ah, como ela são muitas...  Você não pode fazer nada, é o sistema.  Puro conformismo e impotência.  Entretanto, pode haver outras saídas.  A denúncia e a mobilização.  Não para fins eleitoreiros e de acusações apenas.  Mas, para o resgate da dignidade e cidadania perdidas nestas emergências.

Talvez uma luta para dar mais visibilidade aos inúmeros casos que acontecem diariamente.  Na causa básica, ao invés de infecção respiratória (onde está o infarto?), colocar-se –ia ABANDONO DO PODER PÚBLICO.  Então, passar-se-ia a ter a responsabilização de alguém por muitas vidas ceifadas pela negligência e pelas condições sub-humanas a que estão expostos.

Entre as sofias e marias o mesmo desejo: precisa-se urgentemente de locais e condições adequadas para se produzir saúde.  Mais dignas mais justas, mais humanas.

E, finalmente, para Maria, que carinhosamente a chamávamos de Dona Lia, a minha homenagem a uma mulher íntegra e serva fiel a Deus que nunca se esquivou de ajudar o próximo.   Até breve, encontramo-nos nos céus!

 

 ¬ Revda. Jeane Grande Arruda de Miranda Coelho é Presbítera na Diocese do Recife;

Pároca da Paróquia Anglicana Salvação, no Arcediagado Norte da Diocese.

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Última atualização (Sex, 08 de Janeiro de 2010 06:28)

 


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