Entre Sofias e Marias
Pensamento do Clero
Entre Sofias e Marias
Revda. Jeane Coelho
O ano novo chegou. Com ele, algumas tragédias causaram muita comoção, como foi a de Angra dos Reis. Outras, como a superlotação das emergências públicas do Estado, como o Hospital da Restauração, já não produzem respostas pelo lugar comum que ocupam. Não seria isto o “normal” dos grandes feriados? Triste constatação.
Não se pode desconsiderar uma tragédia pelo simples fato de sua ocorrência diária, pois, uma outra maior estaria acontecendo: a indiferença com a dignidade humana. Talvez algumas perguntas esclareçam mais a sua invisibilidade. Que classe social constitui a maior parte de seus usuários? Qual o plano de saúde que utilizam? São conhecedores da Constituição Federal que garante a todos o direito à saúde? Respostas que gestores e população necessitariam refletir. Cabe, entretanto, a nós o não calar. Eis, o caso:
No primeiro feriado de dezembro, uma usuária deu entrada no Agamenon Magalhães, já referenciada pelo Tricentenário, para sua emergência cardiológica. Suspeitava-se de um princípio de infarto. O seu nome era Maria. A mesma aos 78 anos depois de um atendimento inicial, ficou a aguardar exames sentada em uma cadeira. Constatou-se que não se poderia dar alta, pois, seu caso inspirava cuidado.
Ao mesmo tempo, vários médicos trabalhavam incessantemente, pois, a demanda não parava de crescer. Em circunstâncias bastante adversas e precárias corriam contra o tempo para prestar o atendimento. Fato este complicado pela falta de leitos na UTI e pela inexistência de locais para colocar os pacientes. Inclusive com a tarefa de decidirem quem passaria ou não para a sala de emergência. Com certeza no juramento de Hipócrates aos quais fizeram não constava a “escolha de Sofia”, isto é, o decidir sobre a vida de alguém.
Depois de três dias e duas noites em uma cadeira plástica e sem ter onde reclinar a cabeça, a amada Maria passou mal e pode finalmente passar para a sala de emergência (a sua classificação de risco alcançou o “valor necessário” para tal). Mas, o tempo de sua permanência naquela ante-sala da vergonha foi determinante para sua condição final. Depois de 24 dias de resistência, a amada Maria faleceu.
O que pensar de tal situação? Talvez usar o chavão: Ah, como ela são muitas... Você não pode fazer nada, é o sistema. Puro conformismo e impotência. Entretanto, pode haver outras saídas. A denúncia e a mobilização. Não para fins eleitoreiros e de acusações apenas. Mas, para o resgate da dignidade e cidadania perdidas nestas emergências.
Talvez uma luta para dar mais visibilidade aos inúmeros casos que acontecem diariamente. Na causa básica, ao invés de infecção respiratória (onde está o infarto?), colocar-se –ia ABANDONO DO PODER PÚBLICO. Então, passar-se-ia a ter a responsabilização de alguém por muitas vidas ceifadas pela negligência e pelas condições sub-humanas a que estão expostos.
Entre as sofias e marias o mesmo desejo: precisa-se urgentemente de locais e condições adequadas para se produzir saúde. Mais dignas mais justas, mais humanas.
E, finalmente, para Maria, que carinhosamente a chamávamos de Dona Lia, a minha homenagem a uma mulher íntegra e serva fiel a Deus que nunca se esquivou de ajudar o próximo. Até breve, encontramo-nos nos céus!
¬ Revda. Jeane Grande Arruda de Miranda Coelho é Presbítera na Diocese do Recife;
Pároca da Paróquia Anglicana Salvação, no Arcediagado Norte da Diocese.
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Última atualização (Sex, 08 de Janeiro de 2010 06:28)
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