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IGREJA ANGLICANA

  

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Home Artigos Clero Sermão de Ação de Graças

Sermão de Ação de Graças

 

Sermão de Ação de Graças 

Doze Anos de Sagração de Dom Robinson Cavalcanti e  Noventa Anos de Dona Gerusa

 

 (Gn 2.18-24; Sl 8; Hb 1.1-4; Mc 10.2-12)
Rev. Maurício Amazonas, OSE (¬)

Neste Dia de São Francisco de Assis, eu gostaria de Saudar:
Ao Revmo. Dom Robinson pelo aniversário de sua Sagração;
À sua genitora, Dona Gerusa, pelos seus 90 anos de vida;
Aos Veneráveis Arcediagos e Deões das Catedrais;


Aos colegas Presbíteros e Presbíteras;
Ao Prior da Ordem de Santo Estevão;
Aos Diáconos e Diáconas;
Aos Ministros Locais;
Aos Frades e a todo o Povo em geral.
 
Quero agradecer ao nosso Bispo Diocesano pela honra que concede ao Presidente do seu Conselho Diocesano para proferir esta palestra, numa data tão significativa para ele e sua genitora. Entre tantos oradores qualificados para este momento, ele foi escolher justamente o menor dos seus filhos para representar o conjunto da Diocese. Farei todo o possível para corresponder.
 
À Dona Gerusa, eu gostaria de me dirigir com o mais profundo dos meus respeitos. Quero dizer à senhora que foi com as pessoas mais idosas que eu desenvolvi as minhas primeiras amizades. Durante muito tempo, todas as vezes que ia à minha cidade natal eu tinha prazer de visitar meus amigos e amigas de cabelos brancos. O meu apego pelos mais velhos se deve ao fato de que meus pais não permitiam que eu jogasse bola e nem corresse no meio da rua, como as outras crianças. Por causa, disso eu aprendi a conversar com as mulheres que ficavam nas calçadas, depois que serviam o jantar à família. Vem daí o meu gosto pelas estórias fantásticas e o meu apego ao conto e à fábula. Não é à toa que sonho em voltar para Cupira e morar numa casa com um alpendre cheio de cadeiras para receber as pessoas e conversar!
 
Mas olhando superficialmente para sua história, Dona Gerusa, pode-se perceber que a senhora foi uma mulher que cuidou bem de sua família. Como podemos deduzir isso? Pelo fato de que o seu filho, Dom Robinson, demonstra ter muito cuidado para com a senhora. Se ele sabe cuidar, é porque foi bem cuidado. Quem o conhece sabe que ele, quando vai do Recife a Paripueira, tem parada obrigatória em União dos Palmares, para ter um tempo mínimo suficiente para uma boa conversa acompanhada de um lanche ou refeição, na casa da senhora. Seu filho também aprendeu a compartilhar sua casa com os amigos dele. Muitos de nós já tomamos refeições na casa do Bispo e dona Miriam. Alguns já precisaram se hospedar e até mesmo passar alguma temporada na casa deles. Seu filho e sua nora são devidamente acolhedores e hospitaleiros. Hospitalidade é um importante preceito bíblico (Hb 13.2) que, lamentavelmente, não é muito bem lembrado em nossos dias, Dona Gerusa.
 
Dentre tantos aspectos da formação de sua família, acho que podemos mencionar o religioso. Sabemos que a senhora sempre foi cristã, porém o seu marido foi discípulo de Kardec, mas que, pela graça de Deus, terminou convertido ao Evangelho, como discípulo de Cristo, e está aguardando o dia da ressurreição.
 
Em tudo isso, vemos a mão de Deus guiando a sua família, pois foram as primeiras lições de catequese que fizeram o seu filho Robinson compreender a mensagem do Evangelho pregado pelo marceneiro adventista, o alagoano Josué Clementino,[1] que um dia o conduziu a Cristo, começando por apresentar-lhe o Decálogo de Moisés. Foram as lições antigas que despertaram o amor à Lei de Deus no coração do adolescente Robinson.
 
Sabemos que foram as mulheres piedosas que deram filhos importantes para o Reino de Deus. Não apenas mulheres como a bendita virgem Maria e sua prima Isabel, mas também Santa Mônica, a mãe de Santo Agostinho de Hipona; e Suzana, mãe do Rev. John Wesley. Certamente a senhora será contada entre essas mulheres importantes, pois dos quatros filhos que gerou, um se tornou importante Bispo na Igreja do Senhor Jesus Cristo.
 
Finalizo minhas palavras para Dona Gerusa pedindo que Deus lhe conceda saúde e vigor pelos anos que viverá entre nós, desfilando sua elegância, seu sorriso discreto e sua simpatia. Encerro dizendo que: “Os que estão plantados na Casa do Senhor florescerão nos átrios do nosso Deus. Na velhice ainda darão frutos; serão viçosos e vigorosos, para anunciar que o Senhor é reto. Ele é a minha rocha e n’Ele não há injustiça” (Sl 92.13-15).
***
Com relação ao meu Bispo, o que dizer sobre o Dom da Resistência, que se converteu ao Evangelho Reformado em 21 de Abril de 1960; que entendeu o plano da salvação pela pregação de ninguém menos que o Rev. Antonio Elias, frequentando a Igreja Presbiteriana do Brasil neste período, e que depois veio a se confirmar na Igreja Evangélica Luterana do Brasil, em 31 de Outubro de 1963, na qual serviu ao Senhor durante 12 anos?[2] O que dizer sobre o homem que foi um dos preletores do Congresso para Evangelização Mundial de Lausanne, na Suíça, em 1974; e que veio para o Anglicanismo por convicção adulta, em 1976; um homem que teve entre os seus mestres ninguém menos que o Rev. John Stott, em suas preleções internacionais? O que dizer sobre quem esteve no centro de todos os movimentos teológicos decisivos da América Latina, como a ABU (Aliança Bíblica Universitária), a FTL (Fraternidade Teológica Latino-Americana), CONELA (Confraternidade Evangélica Latino-Americana), a Comissão Teológica da Aliança Evangélica Mundial (LCWE), e o MEP (Movimento Evangélico Progressista); além de veicular suas teses e artigos em programas de rádio, TV, jornais, livros e revistas de circulação nacional? Que dizer da importância de um Bispo da Comunhão Anglicana que foi convocado pela Diocese do Recife, pela Fraternidade dos Evangélicos na Comunhão Anglicana (EFAC), pela rede Uma Causa Comum, pela Conferência sobre o Futuro Global do Anglicanismo (GAFCON), e pela Fraternidade dos Anglicanos Confessantes (FCA), para ser um dos analistas da crise de nossa civilização ocidental, abordando o problema pela ótica da Teologia cristã, ortodoxa e evangélica? Que dizer sobre um homem que viaja pela Europa, todo o Continente Americano, África e Ásia, discursando fluentemente em português, espanhol e inglês, podendo ainda conversar com franceses e italianos no idioma deles? Nisso tudo, estamos falando apenas do Bispo e do pensador cristão, sem levar em conta a grande importância do professor universitário e do cientista político, com as publicações de suas teses de economia, política, sociologia e história[3].
 
Evidentemente que não poderíamos falar sobre todos os aspectos importantes de uma vida tão frutífera como a de Dom Robinson Cavalcanti. Homem que leva a sério o seu papel como Bispo e tem consciência do seu dever de preservar “o culto, a doutrina, a disciplina e a liturgia desta Igreja”. Que faz tudo isso à luz dos princípios emanados das Escrituras Sagradas, de acordo com a tradição católica e apostólica de conservar o sagrado depósito que recebemos por herança dos nossos pais na fé. Um homem que, como o Apóstolo São Paulo, em nada tem a sua vida por preciosa, desde que viva para promover a causa do Evangelho de Cristo. Não temos como elencar, numa palestra pequena como esta, as coisas mais importantes que esse Bispo realizou nos seus doze anos de Episcopado.
 
Por isso, vamos falar rapidamente daquilo que nos salta aos olhos com mais obviedade, como por exemplo, uma breve análise dos textos bíblicos que lemos hoje. Confesso que me senti tentado a mudar os textos das leituras de hoje. Conversei com a minha mulher, Revda. Keyla Camargo, sobre a dificuldade desses textos, especialmente do Evangelho. Mas me adverti de que uma das características do nosso Bispo e da nossa Diocese é que não fugimos do contencioso, por mais que isso nos seja custoso.
 
Em Gênesis encontramos a narrativa de que Deus criou homem e mulher e que o casamento deve ser compreendido como a união afetiva e corporal de homem e mulher. Isso está no cerne das questões que nós defendemos como padrão normativo de Deus para toda a humanidade.
 
Temos também o Mandato Cultural (Gn 2.19-20a; Sl 8.6-8). Deus estabeleceu que o ser humano deveria cuidar da terra e dos animais, nomeando-os. Neste Dia de São Francisco de Assis queremos reafirmar a nossa radical solidariedade para com a criação de Deus, assumindo nosso compromisso de cuidar, amparar e promover o bem e a dignidade de todos os seres criados. Para isso, citamos como exemplo, o nosso Rito Alternativo da “Bênção dos Animais”, em nosso Livro de Oração Comum Brasileiro[4].
 
A leitura da Epístola aos Hebreus (1.1-4) nos coloca dentro do coração da Teologia cristã. Aqui está a cristocentricidade da fé da Igreja. Cristo, o Filho de Deus, está no centro de todas as coisas no céu e na terra. Deus criou o mundo por meio d’Ele e também Se revelou ao mundo por meio d’Ele, que é a “imagem exata de Sua pessoa”. Deus nos redimiu dos nossos pecados por meio do sacrifício d’Ele. A este mesmo Filho, Deus “constituiu como herdeiro de tudo” e agora Ele está “assentado à destra da Majestade nas alturas”.
 
Esta é a mensagem que devemos anunciar, tal como fez o Apóstolo São Paulo no Areópago de Atenas, pegando carona na poesia de Epimênedes de Creta (século VI a.C), ao dizer que “n’Ele nós vivemos e nos movemos e existimos” (Atos 17.28). Isto é o mesmo que nós lemos em sua Carta aos Romanos: “Porque d’Ele e por Ele, e para Ele são todas as coisas, glória, pois, a Ele eternamente. Amém!” (Rm 11.36). Aqui está um dos sólidos pilares da Reforma do século XVI: É Cristo e somente Cristo. Apenas Ele é o suficiente.
 
Por causa disso, o Bispo e esta Diocese continuam pregando aquilo que nós cremos ser o consenso dos fiéis ao longo da história de 2 mil anos de Cristianismo. Não abrimos mão da pregação exclusiva de Jesus Cristo como Salvador, pois cremos que Ele mesmo disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14.6).
 
Sobre Cristo, afirmou o Apóstolo São Pedro: “E em nenhum outro há salvação, pois também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” (Atos 4.12). Da mesma forma ensinava o Apóstolo São Paulo: “Porque há um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem” (1Tm 2.5). Isso é o que foi posto pelos santos Apóstolos e não aceitamos outro fundamento. Que mudem os tempos e os conceitos humanos. Diante de Deus, a humanidade continua decaída e carente da salvação que somente pode ser alcançada através de Jesus Cristo.
 
Vamos agora ao texto mais difícil. Ao nos determos sobre o Evangelho, percebemos que os homens continuam os mesmos na sua “dureza de coração”. Se nos dias de Moisés eles abandonavam suas mulheres e não deixavam que nenhum homem chegasse perto delas, assim estão agindo os homens violentos que maltratam e oprimem suas companheiras. Por causa da dureza do coração deles, Moisés autorizou a Carta de Divórcio. Isso possibilitava a mulher seguir sua vida sem mais pertencer àquele homem. Ela deixava de ser “mercadoria” do marido. A Carta de Divórcio era, na verdade, uma Carta de Alforria, uma declaração de liberdade para viver em paz.
Contudo, conforme o texto paralelo no Evangelho de São Mateus, a pergunta que os fariseus fizeram a Jesus foi: “É lícito ao homem repudiar sua mulher por qualquer motivo?” (Mt 19.3). Os liberais (da escola de Hillel) e os conservadores (da escola de Shammai) discutiam entre eles para saber qual era esse “qualquer motivo” que justificaria o divórcio. A resposta de Jesus é que eles não conheciam a Palavra d’Aquele que os ordenara “desde o princípio da criação” (Mc 10.6//Mt 19.4). Se os fariseus queriam discutir sobre Moisés, ali estava um texto que fora autorizado depois da Queda. Jesus, porém, está apontando para o ideal de Deus antes da Queda. Por isso Ele fala do “princípio”. Fala do estado original. Ali, sim, os casamentos eram feitos e ordenados por Deus. Depois da Queda, todas as nossas relações foram corrompidas pela condição de pecadores e pecadoras em que nos tornamos.
 
Como já afirmamos, o nosso Bispo nunca fugiu desses temas polêmicos, embora tenha pago um alto preço exatamente por causa disso. São muito famosos os seus livros Uma bênção chamada sexo – best seller com mais de 30 mil exemplares vendidos; bem como Libertação e sexualidade – esgotado e que há muito deveria ter sido ser reeditado. Ele não acredita que o carimbo sacramental signifique que Deus concordou e abençoou todos os casamentos feitos na Igreja. Em uma de suas teses, abordando o tema do divórcio e propondo um acompanhamento pastoral efetivo, o Bispo chegou a afirmar que
 
Há uniões feitas por Deus, pelos próprios homens e pelo demônio. Por melhores que sejam as intenções dos cônjuges, seus defeitos, patologias e fragilidades poderão resultar em fracasso matrimonial. A ação pastoral visa a manutenção e a restauração das uniões, mas antes de impedir ou condenar o divórcio, a ação pastoral deve acompanhar as transições visando o amadurecimento dos cristãos que optarem por novas uniões[5].
 
Como se pode perceber, são afirmações muito fortes e corajosas. Há pessoas que delas discordam e outras que as acham muito aquém dos posicionamentos liberais e revisionistas. Suas posições sempre desagradaram aos fundamentalistas e aos liberais. Independentemente disso, sempre vamos encontrá-lo tomando posições e decisões. Que o digam os seus muito mais de mil artigos publicados no Brasil e no mundo. Consultem a Página da Diocese.
***
Infelizmente, percebe-se também que alguns pastores e pensadores cristãos, que um dia receberam a influência do intelectual Robinson Cavalcanti, não obstante, já não militam mais as mesmas causas que ele. Perguntados sobre o que aconteceu, eles respondem que o mestre Robinson mudou. Afirmam que ele recrudesceu. Virou um fundamentalista em teologia e esquerdista um tanto radical em política. Entretanto, quando lemos o pensamento político e progressista cristão do Bispo, encontramos as seguintes inscrições:
 
Reafirmo a minha crença no socialismo democrático, e na necessidade da conscientização, da mobilização e da expansão da cidadania, em um Estado Laico, Democrático e de Direito, onde as Igrejas possam em liberdade viver a sua fé[6]. [...] Ser progressista não é aderir à neurose do “politicamente correto”, como expressão de um “puritanismo de esquerda”, quando a esquerda não foi capaz de reconstruir verdadeiras utopias de sociedades novas, solidárias e justas, com um modo de produção não capitalista. Ser cristão progressista é ensinar e procurar viver todo o conselho de Deus, e a capacidade d'Ele de tornar novas todas as coisas. Ser progressista é visar o crescimento de todas as pessoas e instituições à estatura de Cristo[7].
 
E o que houve com relação à sua teologia? Aqui, o pensador social de vanguarda cristã foi confundido com um teólogo heterodoxo. Talvez Dom Robinson Cavalcanti fosse conhecido apenas pelo viés literário da revista Ultimato, cujos artigos já renderam dois livros: A utopia possível e A Igreja, o país e o mundo. O que temos ali, grosso modo, é o pensamento político e social de um intelectual evangélico de esquerda, numa hora questionando tabus e propondo mudanças eficazes no campo de usos e costumes, noutra hora criticando a velha prática clientelista e patrimonialista da Igreja no que se refere à política partidária etc. Tanto é assim que, numa sessão em que ele responde cartas dos leitores, em A utopia possível, temos uma questão interessante. Uma pessoa reclama que Dom Robinson Cavalcanti não provoca o debate teológico pesado, ficando apenas no periférico, pois ele não questiona os dogmas da Igreja. A resposta de Dom Robinson é clara: “Na verdade, nunca questionei os dogmas e nem pretendo fazê-lo, pois questionar o dogma é, em última análise, questionar ao próprio Deus. Isso eu não faço!”[8].
 
É exatamente assim que se reflete o fazer teológico no mundo da ortodoxia evangélica. Como diz o Rev. Ricardo Barbosa, “as verdades reveladas nas Escrituras Sagradas são absolutas. Não estamos autorizados a alterá-las, muito menos a ajustá-las ou adequá-las ao interesse cultural”[9]. A Teologia Evangélica era definida por Karl Barth como sendo o resultado da análise dos registros dos textos do Antigo e Novo Testamentos, tendo os Profetas e Apóstolos como testemunhas oculares e auriculares, e que foi redescoberta e revivida na Reforma do século XVI[10]. Para o teólogo da Basiléia, Ortodoxia significava apenas uma só coisa: “estar de acordo com os Pais e os Concílios”. Dessa forma, para Barth, ser ortodoxo é permanecer na tradição da Igreja, e esta “tradição deve ser entendida como a soma total das vozes dos Pais”. Contudo, deve-se compreender que “a tradição não é revelação”. Mas em todos os embates, devemos ter sempre “a Escritura Sagrada como professora da Igreja”. Respondendo aos muitos questionamentos do liberalismo do século XIX e fundamentalismo do século XX, assim arrematava o velho pastor e teólogo da Igreja Confessante: “A norma que determina a nossa escolha é a Escritura Sagrada”[11].
 
Com relação ao Robinson pensador político evangélico, uma coisa é o pregador falando e citando a Bíblia com o seu catálogo de pecados humanos. Outra coisa é o cientista político falando dos direitos civis desses humanos pecadores. Como cidadão, com formação em Direito, Dom Robinson sempre defendeu os direitos civis das minorias. Mas que fique claro que uma coisa é defender o direito que um motorista tem de ser socorrido, quando envolvido num acidente, ainda que ele estivesse alcoolizado; e outra coisa muito diferente é propugnar o direito de esse mesmo motorista dirigir embriagado. Dirigir embriagado é crime e o motorista deverá ser punido por isso. Mas se ele estiver acidentado, primeiro deverá ser socorrido, para depois ser autuado, multado e processado. O posicionamento solidário não impede o reconhecimento da culpa e a aplicação das penas cabíveis.
 
Com relação à lista de pecados é a mesma coisa. “Todos pecaram e estão distantes da glória de Deus” (Rm 3.23), e “o salário de pecado é a morte” (Rm 6.23). Isso é motivo suficiente para não concordar com passeatas promovidas para ostentar orgulho de pecados de qualquer natureza. Do pecado, tudo o quanto podemos fazer é nos envergonhar e confessá-los diante de Deus, implorando Sua graça, misericórdia e perdão. Já imaginou uma passeata para ostentar o orgulho de padres pedófilos ou de pastores adúlteros? Não. Não podemos apoiar e nem nos calar diante de tamanhas aberrações. Temos que continuar dizendo aos pecadores que Deus nos ama e que, embora aborreça os nossos pecados, Ele nos chama ao arrependimento, à penitência e à conversão. O Evangelho é isso (Mc 1.14-15).
***
Mas queremos lembrar que o que faz um bispo ser verdadeiramente Bispo não é apenas sua capacidade intelectual com posicionamentos teológicos claros e sólidos. Além de seu reconhecimento nacional e internacional pela capacidade aglutinadora em torno da causa evangélica, um bispo precisa, também, construir boas relações com o seu Clero e o seu Laicato. Sou alguém que testemunha como Dom Robinson tem sido um pastor receptivo e acolhedor. Quando aqui cheguei, no começo de 2001 (com muito mais cabelos e menos barriga), vim pedir guarida para ser cuidado e pastoreado. Dizia eu ao Bispo que me achava como um pastor sem rebanho, quando eu também era uma ovelha sem pastor. Apresentei a ele minhas 5 razões porque havia escolhido a Igreja Anglicana para ser nela apascentado. Também disse a ele que estava vindo para esta Igreja por causa do Episcopado e não por causa da pessoa do Bispo Robinson. Ele, de pronto, me respondeu: “Você muito me alegra dizendo isso, pois os bispos passam, mas o Episcopado fica. Quem vem por causa do bispo, acaba gerando problemas para o Episcopado”. Depois eu constatei as verdades do que ele disse naquele dia. Naquela mesma hora, ele me deu sua destra de acolhida, impôs as mãos sobre a minha cabeça e orou a Deus por minha vida, e para que eu permanecesse fiel ao Evangelho de Jesus Cristo.
 
Desde então, a nossa relação tem sido pontuada por amizade, lealdade e transparência. Da minha Confirmação, recepção na Ordem de Santo Estevão, Instituição de Ministro Local, Postulação, Candidatura, Ordenações Diaconal e Presbiteral; passando pelos cargos paroquiais e diocesanos que tenho ocupado, até minha chegada à Presidência do Conselho Diocesano, nós temos observado e cumprido os dispositivos canônicos. A amizade e conhecimento que iniciamos desde o ano de 1988, quando eu era ainda estudante no Seminário Teológico Congregacional do Recife, nunca foram impeditivos para negligenciar o respeito e o cumprimento dos Cânones.
 
Mas eu gostaria de fazer uma revelação neste dia. Eu conhecia o Rev. Robinson Cavalcanti apenas dos artigos da Revista Ultimato. Nunca tinha lido um só dos seus livros. Diziam que ele era um homem muito inteligente, mas muito perigoso. A primeira vez que o ouvi falar foi sobre história e democracia, quando nos preparávamos para as eleições de 1989, ele me pareceu um sujeito muito razoável. Não engabelava ninguém, mas, pelo contrário, construía argumentos sólidos e nos fazia “andar” por dentro da história “com os pés no chão”. Aprendi a gostar e confiar no que ele dizia. Outras vezes nos encontramos em debates políticos e até nas reuniões de Movimento de Padres Casados. Assisti alguns dos seus debates em Universidades do Recife. Eis que num belo dia estávamos na Paróquia Anglicana da Carneiro Vilela. Ele havia feito uma palestra. Ao final, eu cheguei perto dele e perguntei: “Reverendo, onde é que fica o bebedouro?”. Ele me levou até um corredor, pegou um copo e me serviu água. Eu fiquei admirado. Geralmente os pastores pedem para alguém nos servir. Mas ele foi quem me serviu. Este é o espírito cristão. Esta é uma demonstração da grandeza de alguém que tanto faz estar numa mesa com debatedores internacionais, ou numa conversa informal, comendo pão doce com caldo de cana. Que tanto faz se apresentar e falar para homens de Estado na Capela do Parlamento da Suécia, ou numa pequena Capela de sua Diocese, com duas ou três pessoas presentes. Mas porque eu estava admirado? É que eu não sabia. Mas o Bispo é o primeiro servidor dos servos de Cristo. No plano de Deus, o bispo já estava designado.
 
Outro aspecto do Episcopado de Dom Robinson é o profundo desejo de seu coração em ver esta Igreja promovendo encontros e retiros para familiares de pastores. Podemos sonhar juntamente com ele e trabalhar para que este sonho tome forma e corpo, pois como dizia o bispo e poeta, Dom Helder Camara, “sonho que se sonha só, é só um sonho. Mas sonho que se sonha junto é realidade”. Então, Bispo, vamos sonhar e fazer com que o nosso povo tenha os mesmos sonhos e aspirações. Sonhemos juntos!
 
Mas ninguém pode negar como as frustrações no campo relacional têm maltratado o coração do nosso Bispo. Alguns ex-companheiros, que abandonaram a nossa Diocese, muito feriram o coração e a alma do nosso Pastor. Ele até pediu aos que saíam para que não alterassem o curso da amizade por causa das diferenças teológicas, mas o Bispo não foi atendido em seu pedido. Segundo ele mesmo diz, a convivência com as diferenças foram mais fáceis fora que dentro da Igreja. Entre os colegas da academia e militância política de muitos anos, apenas um se recusa falar com ele, ao passo que, no mundo cristão e evangélico, muitos lhe negam as horas[12]. Uma coisa nós aprendemos nestes 12 anos do seu Episcopado, Bispo: nem todos os que são nossos estão conosco, como nem todos os que estão conosco são nossos. Judas Iscariotes que o diga. Mas uma coisa ficou muito clara: os bajuladores de plantão são os menos confiáveis no processo. Aqueles que vivem apenas elogiando e balançando a cabeça, acriticamente, são uns maria-vai-com-as-outras. Quando eles veem frustrados os seus projetos pessoais, fogem da maneira mais traiçoeira e mais descarada possível, aliando-se a tudo que antes diziam abjetar como repudiáveis. Algumas vezes estivemos rodeados dos admiradores do Iscariotes, que não apenas se sentaram à nossa mesa, como tiveram posição de honra e de destaque à cabeça de nossa Mesa. Para enumerá-los, precisaríamos de todos os dedos das mãos e dos pés, e ainda faltariam dedos. Mas nós estamos aprendendo. Tanto o Bispo, quanto o Concílio e o Conselho estamos errando e acertando juntos. A história se aproveita do couro das nossas costas para fazer escola.
 
Diante dos tristes fatos que sofremos, queremos dizer ao Bispo que não adianta chorar e sofrer pelos que não querem somar conosco. A Igreja, como instituição, é a união de pessoas livres que se submetem aos seus Cânones e podem deles abjurar na hora em que não se sentirem mais à vontade para prosseguir nela. Nossas portas estão abertas não apenas para recebermos os que chegam, mas também para deixarmos ir os que não querem ficar. Lamentamos grandemente pelos que nos deixaram. Mas não podemos chorar além do que se requer o período de um luto salutar. É preciso deixar partir os que já partiram. Vamos cessar o choro, lavar o rosto, botar uma roupa nova, pentear os cabelos, tomar um café bem forte e partir para a vida com aqueles que permanecem conosco, fiéis e leais aos nossos ideais.
 
Nestes momentos, eu gosto de me lembrar do exemplo de Davi, quando da ocasião da morte do seu filho recém-nascido. Enquanto a criança estava enferma, ele chorou e lamentou profundamente para que Deus o salvasse a vida. No entanto, quando a criança morreu, Davi se levantou do seu lamento, tomou banho, perfumou-se, botou roupas novas, arrumou-se todinho e foi prestar culto de adoração a Deus. Depois disso, voltou para casa, alimentou-se e foi cuidar dos afazeres do seu povo (2Sm 12.15-24).
 
É isso mesmo. Vamos reconhecer as nossas perdas, enxugar o pranto, arrumar a casa e cuidar dos que estão conosco. Eles dependem do apoio, incentivo, animação e liderança do seu bispo e pastor. Já aprendemos com a história e dela sempre podemos tirar novas lições. Especialmente aquela que nos ensinou o Apóstolo São Paulo: “Uma coisa sei que faço, esquecendo-me das coisas que para trás ficam, avanço para as que estão diante de mim, prosseguindo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” (Fp 3.13-14). Prossigamos para frente e para cima. Sempre!
 
Querido Bispo e Pai em Deus: doze anos já se passaram e “até aqui o Senhor nos ajudou”. Mas isso ainda não é tudo. Deus tem muito o que realizar pela vida e ministério do seu servo! Muitas são as coisas que estão adiante, apontando na direção do alvo, antes que o Bispo alcance o prêmio da soberana vocação. Levantemos e andemos, porque ainda não será agora o nosso descanso. Segure firme o cajado que o Supremo Pastor confiou às suas mãos. Anime, encoraje e oriente o seu povo. Conte com este servo do Senhor, seu filho leal, amigo de todas as horas e “pau pra toda obra”. Não importa se temos de rir ou chorar: estaremos sempre juntos e unidos na obra do Senhor.
Finalmente, gostaria de lembrar que a casa de nossa família está sempre aberta para um cafezinho com torradas e boas conversas, para tratar não apenas do que seja eclesiástico, mas também lúdico, artístico, político...
Façamos tudo para a glória de Deus e do Seu Reino.
Que Deus o abençoe com coragem, força e discernimento.
Vá adiante, cajado na mão, dizendo ao povo que marche!
 
“O Senhor é contigo, varão valoroso!” (Jz 6.12).
Paróquia Anglicana Emanuel,
Olinda (PE), 04 de outubro de 2009.
 

 


[1] Conforme divulgado no artigo eletrônico Mensagem Episcopal do Dia da Bíblia, em 14 de Dezembro de 2008.
[2] Conforme publicado no artigo eletrônico Aniversário de minha decisão por Cristo, em 21 de Abril de 2007.
[3] Dom Robinson Cavalcanti foi o primeiro evangélico do Nordeste a se tornar mestre em Ciência Política, defendendo sua Dissertação sobre Alagoas – a Guarda Nacional e as origens do coronelismo. Virou livro: As origens do coronelismo e hoje está esgotado. Também é de sua autoria o clássico Cristianismo & Política (Editora Ultimato, 2002).
[4] Livro de Oração Comum Brasileiro. Brasil: Diocese do Recife – Comunhão Anglicana, 2008, pp. 595-596. 
[5] Sexualidade – o prazer que liberta. Revista Inclusividade. Ano I – No.2 – Julho 2002.
[6] Conforme publicado no artigo eletrônico Adeus PT, de 16 de Dezembro de 2003.
[7] Jornal do MEP – Movimento Evangélico Progressista, Ano I, número 2, setembro/outubro de 2006, página 6.
[8] Peço desculpas pela citação inexata, pois a faço de memória do que li há exatos 13 anos, em 1996. O livro é esgotado.
[9] Ricardo Barbosa de Sousa, Prefácio de CAVALCANTI, Robinson, Reforçando as trincheiras. São Paulo: Vida, 2007.
[10] BARTH, Karl. Introdução à Teologia Evangélica. São Leopoldo: Sinodal, 8ed. 2003, p.10.
[11] BARTH, Karl. Credo. São Paulo: Novo Século, 2003, pp. 172-175, (mantidos os grifos do texto em português).
[12] Conforme divulgado no artigo eletrônico Da intolerância homossexual, de 10 de setembro de 2009.

 


¬ Rev. Maurício Amazonas, ose é Presbítero na Diocese do Recife; Presidente do Conselho Diocesano, Pároco da Paróquia Anglicana Jardim das Oliveiras, no Arcediagado Sul, em Recife-PE.

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Última atualização (Ter, 13 de Outubro de 2009 14:49)

 


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