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Home Artigos Clero A Igreja Brasileira e os Pioneiros da Fé - Rev. Marcus O. Throup

A Igreja Brasileira e os Pioneiros da Fé - Rev. Marcus O. Throup

Pensamento do Clero

 

A Igreja Brasileira e os Pioneiros da Fé

Rev. Marcus O. Throup (¬)

Introdução

Tendo deitado nosso olhar sobre os grandes impérios, os reinados dos homens que tiveram passagem pelo Brasil, trazendo na bagagem o cristianismo colonial – superficial em forma, corrupta em essência, abusiva na prática – tornemos a considerar o Reino de Deus[1]. Se é que pode ser chamado de “modelo”, encontramos o modelo missiológico do reino na parábola do grão de mostarda (Mc 4.30-32):

 

“A que comparamos o reino de Deus? Ou, com que parábola o representaremos? É como um grão de mostarda que, ao ser semeado na terra, é a menor de todos as sementes, mas, uma vez semeada, cresce, torna-se a maior de todas as hortaliças e estende grandes ramos de tal modo que as aves do céu podem aninhar-se à sua sombra” (Almeida, Século 21).

Diferente dos impérios que necessitam de todo um sistema militar e econômico para avançar, da minuciosa semente – semeada no coração humilde e temente a Deus – cresce a planta gigantesca que traz benefícios para aqueles que buscam o abrigo da alma. Na sua essência, como C. René Padilha esclarece, o conceito bíblico de reino tem um sentido dinâmico, “significa ‘soberania’, ‘domínio’ ou ‘governo’”, mas, “não se refere a um reino territorial” e sim, “ao poder de Deus em ação – o poder real de Deus que, antecipando o fim, manifesta-se no presente por meio de Jesus Cristo e que se manifestará, em toda a sua plenitude, no futuro”[2].

Na narrativa bíblica, esse poder de Deus revela-se na história de indivíduos, chamados por Deus, apoiados por familiares e capacitados por Deus, a exemplo dos patriarcas no livro de Gênesis (Noé, Abraão, Jacó) ou de Moisés em Êxodo. O fio comum na construção do reino através das histórias pessoais desses e outros protagonistas é um cordão de três dobras: o chamado individual, o apoio do parentesco, e a capacitação divina. Aqueles que receberam o chamado de Deus pela fé não realizaram carreira solo – Noé contava com a sua família, Abraão contava com a mulher e com sobrinho, Moisés contava com seu irmão. Não obstante eventuais desentendimentos no parentesco (ex. Davi!) digamos que o Reino de Deus no AT estabelece-se sucessivamente em linhas familiares (Abraão), tribais (as Doze tribos) e nacionais (Israel). As promessas de Deus dadas a Abraão e recebidas pela fé começam a ter seu cumprimento nas páginas do AT. Apesar das constantes falhas do povo de Deus, pela graça divina a microscópica semente finca raiz no coração dos patriarcas, brota no deserto, se fortalece na monarquia, e cresce por meio da ministração dos profetas de Israel...

 

Já no NT, a vinda de Jesus, o derramamento do Espírito Santo em Pentecostes e o surgimento com poder da Igreja faz com que o Reino de Deus ganhe novos ares e tenha novo alcance. A partir de uma nação a bênção de Deus é transmitida para as nações – agora sim o reino floresce como nunca antes em pleno cumprimento da antiga aliança abraâmica. A importância do indivíduo e do chamado individual novamente aparece (ex. apóstolos Paulo e Pedro). Porém, ninguém atuava sozinho – entra em cena a família da fé como testificam o livro de Atos e as epístolas paulinas que frisam a participação valiosa dos seus “cooperadores” ou “colaboradores” numa ação coordenada e conjunta (ex. Rm 16.15-24). O cordão de três dobras novamente amarra a intrepidez missionária: o apóstolo Paulo foi um indivíduo chamado por Deus, apoiado pela igreja, é capacitado pelo Espírito Santo para converter cidades satélites do império romano em lugares estratégicos para o Reino de Deus.  

Não é que essa dinâmica tríplice seja o único modelo, ou digamos, o exclusivo modus operandi do reino. Porém, segundo os propósitos divinos, tanto na Bíblia como na história eclesiástica posterior percebemos que Deus agiu assim frequentemente. Muitas vezes, na lógica divina, as pessoas chamadas para construir o reino têm nenhum valor ou crédito nos olhos do império (1Co 1.26). É como se para Deus pessoas não estratégicas tornassem pessoas estrategicamente importantes para o reino! Novamente, faz-se relevante o aforismo de Thomas More “nenhum homem é uma ilha”, ou seja, aqueles que recebem algum chamado específico de Deus não atuam em isolação da comunidade cristã. Antes, atrás do indivíduo renomado há muitos outros indivíduos que dão seu apoio, pessoas e personalidades comprometidas com o Reino de Deus que, em obediência a Cristo, tornam-se servos e somam na obra do Senhor. As palavras de Christina Baxter são pertinentes:

“Embora a história eclesiástica é escrita às vezes como se cristãos individuais transformassem a sociedade sem a participação de outras pessoas, a verdade é que mesmo quando grandes líderes estão em destaque – como no movimento para abolir a escravidão – esses grandes líderes dependem da colaboração e apoio de outros que possibilitam que os grandes nomes desempenhem seus papéis”[3].

Em resumo, digamos que onde o Reino de Deus mais cresce há grandes desconhecidos por trás dos grandes nomes. Certamente, aqueles que chamamos de “grandes desconhecidos” são grandemente conhecidos por Deus e têm uma grande participação em construir o Reino dos Céus na terra, em transformar lugares conhecidos ou desconhecidos em lugares estratégicos para Deus. Esses servos de Deus e “soldados de Cristo” também são pioneiros da fé, homens e mulheres de Deus que serão coroados no “porvir” da esfera celestial. 

Em contraste ao cristianismo espúrio da época colonial e a indiferença dos ingleses da época imperial, o Reino de Deus foi construído neste país por meio de indivíduos específicos que, ouvindo e obedecendo ao chamado de Deus, vieram ao Brasil. À semelhança dos casos mencionados acima, é importante entender que esses indivíduos receberam o apoio de outras pessoas, membros da família da fé presentes no Brasil e em outros lugares do mundo. Sem a participação coletiva e colaborativa do Corpo de Cristo na missão de Deus, as tentativas de tornar o Brasil um lugar estratégico para o reino teriam fracassado.

 

(i) Os missionários anglicanos episcopais no sul do Brasil no fim do século XIX

Os missionários norte-americanos episcopais que chegaram ao Brasil no final do século XIX receberam seus chamados enquanto estudaram e ensinaram no seminário de West Virgínia. Com o apoio do seminário, o sonho de evangelizar o Brasil tornaria realidade. A intolerância dos Católicos Romanos no Rio de Janeiro fez com que os pioneiros da fé se deslocassem para Porto Alegre e Pelotas, as duas principais cidades do Rio Grande do Sul. Estratégicas nos seus contextos local, regional, e até nacional, o intuito missionário era torná-las cidades estratégicas para o Reino de Deus.

Os dois grandes fundadores da Igreja Anglicana no Brasil – Kinsolving e Morris – iniciaram trabalhos em Porto Alegre, Pelotas e várias outras cidades da região. Conforme o historiador anglicano Oswaldo Kickh?fel, Pelotas “era uma cidade alegre, artisticamente ativa e dada ao prazer. O estilo de vida parisiense parecia ser o ideal de vida de seus habitantes que chegaram até a cunhar um ditado que se tornou famoso: ‘Paris primeiro, depois Pelotas’[4]. Os missionários, Reverendo John Gaw Meem e Antônio Machado Fraga, foram responsáveis pelos cuidados do dia a dia da Igreja em Pelotas, que costumava reunir-se nas casas das famílias que participaram. Em 1892, a Escola Dominical, no espaço de poucas semanas “do nada”, contava com 16 adultos e 45 crianças, em menos de cinco meses 60 cultos havia sido realizados[5].

Mais adiante, agora com local próprio (a parte superior de um sobrado na rua Osório, 84), os pioneiros da fé Meem e Fraga começaram a receber ameaças e passaram a ser perseguidos. Kich?fel relata dois acontecimentos:

 

Durante um culto no sobrado azul, um bando de populares apareceu em atitude hostil na frente do prédio, ameaçando invadir a casa e acabar com a reunião. Felizmente, apareceu à porta do prédio o capitão Joaquim Raimundo Gomes, herói da guerra do Paraguai, portando na mão uma espada, a mesma com que havia lutado na guerra. Ao ver a disposição do bravo capitão, o grupo de desordeiros arrefeceu os ânimos e aos poucos foi se dispersando até abandonar o local completamente.

 

Em outra ocasião, um homem que estava sentado no fundo da capela, tentou interromper o discurso do pregador. Um dos guardiães pediu que parasse com as suas intervenções agressivas, mas o homem puxou de um revólver e bateu com a arma no rosto do guardião, ferindo-o. A inesperada agressão foi logo contida por um eclesiano de reconhecida força física, que agarrou o atrevido, ergueu-o nos braços e o levou para fora, desarmando-o[6]. 

Para emprestar uma frase do teleevangelista R.R. Soares, tais eventos parecem como uma “novela da vida real”, mas, temos de imaginar o quanto teria sido difícil construir a igreja em meio à rejeição e perseguição de boa parte da população. No seu tempo de episcopado, o primeiro bispo missionário episcopal, Lucien Lee Kinsolving (sagrado em 1899) registrou as seguintes estatísticas: 13,535 batizados; 4,997 confirmados; 2,537 alunos matriculados em escola dominical e 25 templos ou capelas construídos[7]. Seguramente, esse foi o período mais frutífero na história da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, que hoje, segundo estimativos do Robinson Cavalcanti, reúne entre 5 e 10 mil membros ativos em todo território nacional[8].

Qual foi o “segredo” do sucesso de Kinsolving e seus colegas na plantação do Reino de Deus no Brasil? Certamente, tinha a ver com a receptividade ao chamado ­isto é, a disposição de abraçar a missão de Deus quando o Espírito soprou lá no Seminário de West Virgínia e a coragem necessária para tornar o discurso missiológico em ações concretas e destemidas no campo de missões. Destacamos, também, as intercessões e o apoio dado pelos estudantes e staff do seminário – prova viva da máxima que cunhei acima – “onde o Reino de Deus mais cresce há grandes desconhecidos por trás dos grandes nomes”. Por fim, estes pioneiros da fé foram capacitados por Deus para pregar e anunciar o evangelho em lugares estratégicos ou não, tornando-os pontos estratégicos no mapa do reino.

             

(ii) O doutor Butler em Pernambuco (início do século XX)

No livro “A Bíblia e o Bisturi” da autoria de Edijéce Martins Ferreira, relata-se a história inspiradora de Dr. George William Butler, missionário-médico norte-americano que atuou no Brasil nas primeiras décadas do período republicano[9]. Butler semeou o evangelho no nordeste, tanto nas cidades capitais como nos vilarejos rurais do sertão, atuando, principalmente, nos Estados de Maranhão, Piauí, Bahia e Pernambuco, onde fixaria residência, primeiro na cidade de Garanhuns e, mais tarde, em Canhotinho.

Ferreira nos proporciona uma visão panorâmica das atividades de Butler através de algumas estatísticas: em 1894, Butler passou a maior parte do seu tempo em viagens de evangelização. O missionário-médico rodou cerca de 2,687 km por trem e mais 200 a cavalo – tratou com o remédio do corpo e da alma mais de 1,500 pessoas naquele ano. Apesar da sua boa vontade em ajudar e a sua sensibilidade ao Catolicismo vigente, não demorou para a intolerância religiosa manifestar-se contra Butler. Logo no início do seu ministério, certo influente padre fez referência a Butler xingando-o como “um inglês ignorante... que nunca tinha recebido autorização de Deus para pregar o seu evangelho”[10]. Em outra ocasião, após debater questões religiosas com líderes romanos, uma multidão de marianos gritando: “Viva Nossa Senhora e a Santa Igreja Católica!”, tentou linchar o médico; um chegou a apontar uma arma para o missionário[11]. Em Pernambuco, os missionários presbiterianos usavam barba-cavanhaque, daí os opositores gritavam: “Morram os protestantes! Morram os bodes!”[12].

Muito pior, porém, foi o episódio em que Butler perdeu seu colega, o convertido Né Vilella. Por incrível que pareça, o vigário romano Pe. Joaquim Alfredo havia mandado um pistoleiro assassinar o missionário. O assassino de aluguel agrediu Butler, mas acabou matando o Vilella que foi à defesa do missionário. Butler, ao ver seu irmão na fé morto a facadas, gritou para o assassino: “Mata-me também! Satisfaze tua sede de sangue! Não sou melhor do que o irmão que tu matastes!”. O assassino, porém, fugiu, e depois do triste ocorrido, o evangelho cresceu a partir do interesse que a morte de Né Vilella criou nas atividades do Reverendo Butler[13]. Há um desfecho irônico na história, pois, anos depois, certo dia o Pe. Joaquim Alfredo (o mesmo que havia encomendado a morte do missionário) apareceu na casa de Butler, pedindo uma opinião médica. Butler atendeu o Padre, dizendo que se pudesse, daria seu próprio sangue para curar o vigário, mas que seu caso não tinha cura – o padre estava com lepra. Após a consulta, Alfredo prontamente retirou-se da residência de Butler com poucas palavras.  

No decorrer dos seus quase trinta anos ministrando no Brasil, Butler foi instrumental na conversão do povo, dos iletrados sertanejos aos salesianos. Fundou igrejas, incentivou o discipulado de líderes locais e foi o mentor de uma geração de pastores presbiterianos. Encarnou o evangelho “integral” – ao mesmo tempo em que atendeu ao público geral como profissional da saúde, procurou atender à alma. “Quanto é que te devo?”, perguntou certo cidadão após uma consulta. “Nada, mas peça a Jesus Cristo que lhe cure o coração”, replicou Butler[14]. Imaginamos que esse tipo de diálogo tenha sido realizado com frequência pelo pioneiro da fé.

Resumindo, como no caso dos pioneiros episcopais, podemos aplicar a tríplice dinâmica missiológica ao missionário-médico Butler. Primeiro, ele respondeu ao chamado de Deus, e foi ao Brasil; recebeu o apoio da esposa e companheira Rena como também a colaboração de convertidos brasileiros, um inclusive que morreu por ele e pelo evangelho. Capacitado por Deus, Butler ajudou difundir o evangelho no nordeste brasileiro, contemplando com olhos de compaixão lugares esquecidos e nada estratégicos a fim de torná-los estratégicos para o reino.

 

(iii) Pioneiros da fé em nossos tempos 

Trazendo as nossas considerações para os dias atuais, gostaria de tomar a liberdade de falar de dois pioneiros da fé, pessoas com quem eu tive o privilégio de trabalhar diretamente e com quem pude aprender bastante na caminhada cristã. É claro que há muitos exemplos de pessoas chamadas por Deus que fazem a diferença nos seus contextos, mas, limito-me a dois pioneiros, aos quais se possa acrescentar a valiosa contribuição de tantos outros.  

Certa vez, refletindo sobre o avivamento na Inglaterra do século XVIII, o bispo inglês J.C. Ryle comentou que pregadores e pastores levantados por Deus resolveram ir para lugares e cidades não estratégicos a fim de torná-los estratégicos para o evangelho de Cristo. Talvez o lugar menos estratégico da cidade de Olinda – PE seja o lixão municipal, mas foi justamente aí, que a pernambucana, Reverenda Simea Meldrum recebeu o chamado de Deus! No início da década de noventa, a triste situação dos catadores de lixo olindenses chamou a atenção da pastora Simea. Vivendo em barracas no lixão, havia ali toda uma microsociedade, ignorada pelo público geral, as autoridades e governantes mostraram estar “nem aí” para aqueles que se encontravam em meio à miséria às margens da existência.

Ao subir no lixão para realizar o primeiro culto no local que foi acompanhado por um atendimento médico, a Reverenda Simea ouviu novamente as palavras de Deus faladas a Moisés: “Tire as sandálias, pois a terra em que tu estás é terra santa”. Parecia loucura, mas Simea removeu as sandálias e adorou a Deus naquele lugar – evidentemente, Deus tinha grandes planos para sua serva e para aquele local. O primeiro culto foi um sucesso e a semente foi plantada que mais tarde brotaria e tornaria a Paróquia Anglicana Água Viva. Em duas décadas de lutas, inspirada nas palavras do Salmista: “Por causa da opressão do necessitado e do gemido do pobre, agora me levantarei, diz o Senhor” (Sl 12.5) Simea batalhou em prol da saúde e segurança física e espiritual daquela comunidade.

Hoje a igreja tem mais de vinte anos de missão naquele local, centenas de pessoas têm sido convertidas a Cristo e podemos afirmar que uma comunidade inteira foi transformada pelo mover do Espírito de Deus. Com a postura profética da pastora Simea, as autoridades (após longos anos de discussões e resistência) tornaram o lixão aberto em aterro sanitário, melhorando as condições de vida e trabalho da comunidade. A igreja foi instrumental no resgate e na educação de adultos jovens, e crianças do bairro com cursos de alfabetização, cursos profissionalizantes e constantes esforços para atender todas as necessidades básicas da população. Fruto dos projetos da igreja, hoje muitos jovens têm empregos na cidade e alguns estudam em faculdades, o que teria sido inimaginável antes da década de noventa.

A obra de Deus liderada pela pastora Simea em “Aguazinha”, “no lixão” é prova viva daquilo que afirmamos aqui – Deus chama indivíduos e capacita-os para tornar lugares desconhecidos em lugares estratégicos para Deus. Hoje a Paróquia Anglicana Água Viva é paradigma da missão integral na Comunhão Anglicana. Não que a pastora Simea tenha feito tudo sozinha – no decorrer dos anos recebeu apoio de irmãos e irmãs da agência missionária SAMS, e de missionários provenientes de vários países, como eu, por exemplo. O cordão de três dobras – chamado, apoio, capacitação – novamente aplica-se a esse caso extraordinário.  

Por fim, acho pertinente falar do bispo Robinson Cavalcanti, o bispo que me Ordenou às Sagradas Ordens e com quem trabalhei durante uma década, nas cenas nacional e internacional. Na construção da teologia brasileira, Robinson Cavalcanti foi um dos pensadores mais importantes e imponentes dos nossos tempos. Além de ser o autor de 13 livros e mais de 1,000 artigos, Robinson ajudou escrever a história da teologia integral no Brasil. Foi membro fundador em 1970 da Fraternidade Teológica Latino-americana (FTL), e integrou a Comissão de Convocação do Congresso de Lausanne (1974), e a Comissão de Lausanne para a Evangelização Mundial (LCWE), por quatro anos, bem como a Comissão Teológica da Aliança Evangélica Mundial (LCWE), na Unidade “Ética e Sociedade”[15].

Nesses primeiros meses após a sua morte trágica, sem sentimentalismo panegírico, perguntamos: qual o legado que esse pioneiro da fé deixa para a igreja brasileira? Entre outros pontos, quero salientar a dimensão profética da sua teologia e exemplo de vida. Tenho em mente as muitas denúncias feitas com o intuito de desmascarar e desacreditar a corrupção de lideranças desleais tanto na sociedade como na igreja. Na construção eclesiástica, Robinson bem sabia da necessidade de “limpar o terreno” para poder cavar os fundamentos sólidos do reino. Em segundo lugar, chamo atenção para a dimensão holística ou integral da sua teologia e vida. Simples no seu estilo de viver, nas suas participações em conferências nacionais e internacionais Robinson consagrou-se como pioneiro da teologia integral, convencido da necessidade de aplicar toda a Bíblia a todo o ser humano. Em terceiro lugar, encontro uma dimensão autenticamente evangélica na sua teologia, a insistência que só as boas novas de Cristo pregada a toda criatura tem como solucionar os problemas do homem. Robinson preservou seus credenciais evangélicos, lutando em prol das suas convicções até o fim. Em quarto lugar, vejo a dimensão bíblica da sua teologia, quer implícita quer explicitamente, todo o pensamento cristão de Robinson remonta aos preceitos bíblicos. Em quinto, e último lugar, afirmo a dimensão ecumênica da sua teologia, isto é, a disposição de trabalhar em prol da unidade dos evangélicos buscando os pontos “comuns” no espírito de mútua aprendizagem e na compreensão da catolicidade da Igreja de Cristo.  

Quando ainda jovem, Robinson Cavalcanti recebeu o chamado de Deus. Em décadas de ministério nos cenários nordestino, nacional e internacional, Robinson recebeu o apoio constante da sua fiel companheira, a Dona Miriam, que morreria corajosamente na tentativa de defender seu marido. Como os outros pioneiros da fé que vimos acima, abrindo mão de estabelecer-se em lugares mais estratégicos, Robinson concentrou seus esforços na região mais pobre do Brasil, o seu nativo nordeste, trabalhando para torná-lo estratégico no Reino de Deus.

 

Conclusão

Jesus comparou o Reino de Deus ao grão de mostarda, que das mais humildes origens passa a dominar a paisagem. Para visualizar como isso ocorre na prática, tenho explorado o modelo missiológico do “cordão de três dobras” onde indivíduos específicos recebem um chamado de Deus, apoio de familiares e(ou) da família da fé, e capacitação da parte de Deus para transformar lugares conhecidos ou desconhecidos em lugares estratégicos no reino. Dedico o presente ensaio aos pioneiros da fé citados acima e a miríade que trabalham incansavelmente na seara do Senhor sem que conheçamos seus nomes. Oremos para que o reino predomine no nosso horizonte pessoal e que domine o coração das nossas cidades.

 



[1] Veja o artigo “A Igreja Brasileira e os Impérios [da fé]”.

[2] Padilha, C. René “Uma eclesiologia para a missão integral” in Padilha, René & Couto, Péricles. Igreja: agente de transformação. Curitiba: Missão Aliança, 2011, p.47.

[3] Baxter, Christina. The Wounds of Jesus: a meditation on the crucified saviour. Grand Rapids, Michigan: Zondervan, 2004, p.37.

[4] Kickh?fel, Oswaldo. Notas para uma história da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil. Porto Alegre: Projeto Memória, 1995, p.58.

[5] Kickh?fel, Notas, p.59.

[6] Kickh?fel, Notas, p.60.

[7] Aquino, Jorge. Anglicanismo: uma introdução. Recife: Perfilgráfica, 2000, p.28.

[8] Por meio de um comunicado pessoal, no ano de 2011.

[9] Ferreira, Martins, Edijéce. A Bíblia e o Bisturi. Recife: Missão Presbiteriana no Brasil, 1976.

[10] Ferreira, A Bíblia, p. 39.

[11] Ferreira, A Bíblia, p. 58.

[12] Ferreira, A Bíblia, p. 51.

[13] Ferreira, A Bíblia, p. 78.

[14] Ferreira, A Bíblia, p. 61.

[15] Dos dados bibliográficos contidos no site da DR www.dar.org.br Acessado maio 25, 2012.

 



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