Onde Estão os Indignados? - Rev. Miguel Uchoa
Pensamento do Clero
Onde Estão os Indignados?
“Não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente” (Apóstolo Paulo aos Romanos 12:1)
Rev. Miguel Uchoa (¬)
Sou cristão, sou cristão confesso, frequento a Igreja desde o dia em que me tornei cristão em 21 de Dezembro de 1979. Sou cristão imperfeito, mas sou cristão; sou cristão incompleto, mas sou cristão; sou cristão em um processo infindável de santificação, mas sou cristão e nunca, em momento algum, nego, faço concessão, relativizo ou tergiverso. Eu assumo: sou cristão!
Talvez, por isso mesmo, tenha dentro de mim um sentimento de indignação que é maior do que eu possa descrever, e a maior delas é que me sinto de mãos atadas diante de tudo que vejo e, especialmente, diante de uma geração que está adormecida, anestesiada, e, indo, mais além, alienada de tudo quanto estamos vivendo em nosso país e no mundo. Uma geração que está cuidando bem de seu mundinho pessoal, de sua carreira, de seu casamento, e colocando nisso o foco de sua existência, e aí, aí entram os cristãos e os não cristãos, os intelectóides, e o crentóides, os bigbrotheristas, os malhacionistas e os fãs dos vampiros apaixonados.
Não há uma verdadeira indignação. Observe. Olhe ao seu redor. Perceba que o que tira o sono dessa geração, e mesmo dos mais velhos que por algum motivo estão vivendo agora a sua adolescência ou juventude em atraso, não tem nada a ver com os rumos da humanidade, a corrupção em nosso país, a devastação da natureza, a manipulação dos meios de comunicação, dos valores corrompidos, da família desagregada, da promiscuidade, etc. Isso vira até piada, vira comédia, charge, mas não faz parte da vida real dessas pessoas, apesar de trazer-lhes consequências perversas.
Não estranhei meu filho mais novo ter 16 anos completos e sequer ter se interessado em tirar seu título de eleitor para poder ter o direito de votar. Claro que não estranhei, pois eu mesmo tenho título de eleitor há 38 anos e, nesses tempos, ir até as urnas em alguns casos tem se tornado um calvário para mim. Observo que eu ia mais animado com as migalhas de democracia que a ditadura militar me dava, permitindo que eu votasse em um vereador, ou em um senador, mesmo sabendo que eles indicariam outro e nunca conseguíamos a maioria no senado. Mas aquele voto era de indignação.
Onde estão os indignados? Ora, eles estão em duas situações: ou como eu, permanentemente indignado, ou, como outros, longe de se indignar por algo que não seja seu universo particular. MAS, se meterem a mão no meu queijo, eu grito!
Tem muita gente indignada!
- Indignados com a briga da Record com a Globo, mas não desgrudam das novelas.
- Indignados com o poder do big brother, mas gastam ligações e votam.
- Indignados com os preços, mas não com a causa deles.
- Indignados com a política, mas votam sem saber em quem, por pedido.
- Indignados com os prédios, mas não moram em casas por nada.
- Indignados com a Globo e o que ela fez com os fãs dos Beatles, mas que não se indignam com o que ela faz todos os dias com a população.
- Indignados com a poluição, mas seus projetos jogam esgoto na rede pluvial.
- Indignados com o dízimo das igrejas, mas querem os dividendos divinos.
- Indignados com Edir Macedo, mas são fiéis a Waldomiro.
- Indignados com Waldomiro, mas são fiéis a Macedo.
- Indignados com os dois e se justificam para apostatar da fé.
- Indignados com a homofobia, mas são heterofóbicos.
- Indignados com a corrupção, mas sonegam, subornam e roubam sem remorso.
- Indignados...
São muitos os indignados, mas são pouquíssimas as causas nobres de indignação.
Seguimos, mais uma vez, assistindo a briga politica dos caciques para saber quem vai tentar nos manipular dessa vez. Será que ninguém percebe que, de quatro em quatro anos, as ruas ficam asfaltadas, há mais iluminação, etc...?
Como cristão eu sigo indignado porque minha fé diz que não devo ceder à cosmovisão deste século, deste ou de qualquer outro tempo. Posso ser um grito no oceano de silêncio, e sei que não sou, mas me manterei assim indignado com a demência de uma geração e de um tempo.
Saudade das passeatas.
Saudade dos comícios policiados.
Saudade das reuniões do DCE com os dedos duros em volta.
Saudade até dos caras pintadas...
Nunca pensei que poderia dizer isso: mas, saudade de um tempo em que os tanques do Exército se enfileiraram na Universidade para deter um bando de jovens que apenas gritavam por mais verbas para educação, mais democracia, eleição direta para reitores e diretores.
Sinto-me ainda pior quando vejo que muito disso foi alcançado, mas ainda precisamos daqueles jovens nas ruas, pois a coisa não mudou muito. Mas, onde estão eles?
Ora, eles estão indignados com aquilo que afeta as suas vidas!
¬ Rev. Miguel Ângelo de A. Uchoa Cavalcanti é Presbítero da Diocese do Recife; Reitor da Paróquia Anglicana Espírito Santo (PAES), em Jaboatão dos Guararapes (PE). Este artigo foi disponibilizado em seu blog (Blog de Miguel Uchoa), no dia 19/04/2012.
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