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Home Artigos Clero Estudo em João 20 - Ven. Arc. Rev. Carlos Alberto

Estudo em João 20 - Ven. Arc. Rev. Carlos Alberto

Pensamento do Clero

 

Estudo em João 20

Ven. Arc. Rev. Carlos Alberto (*)

A grande maioria dos estudiosos de manuscritologia indica, quase que com unanimidade, que o Evangelho de São João encerra com o capítulo 20, sendo o capítulo 21 um apêndice de acréscimo posterior. Afirmam os estudiosos que os 20.30-31 é a conclusão original do quarto Evangelho, pois nele seu autor resume o propósito de seus escritos: dar uma descrição dos muitos “semeíon” (sinais, que não são, em si, “milagres”, ainda que possam incluir estes) que fez Nosso Senhor Jesus que, segundo o autor, servem para fortalecer a fé em Nosso Senhor como Cristo e Filho de Deus, ou seja, fortalecer (educando e corrigindo) a fé cristológica correta, a messianidade e a divindade de Jesus.

Sendo assim, 20.19-29 descrevem os últimos “semeíon” de todos os que foram registrados no decorrer do Evangelho, especialmente no chamado “Livro dos Sinais” (capítulo 2 ao 12), que preparam, de forma crescente, estes principais e fundamentais “semeíon” descritos em 20.19-29. Veremos, adiante, o valor litúrgico do texto, bem como os sentidos nele marcados, porém, antes, vejamos a estrutura do mesmo, pois ele se encontra, de algum modo, em relação com o Prólogo do Evangelho. Assim, 20.28 relaciona-se com 1.14-18, destacando a revelação de Deus em Cristo; o tema da fé e da vida em 20.30-31 relaciona-se com 1.12-13. A narrativa tem a forma de um díptico, formado pelas diferentes aparições do Ressuscitado:

A – 1ª Aparição – aos discípulos, na tarde do primeiro dia da semana, domingo, portas trancadas (vv.19-23);

B – Elemento de ligação – testemunho da ressurreição e incredulidade de Tomé (vv.24-25);

A’ – 2ª Aparição – aos discípulos com Tomé, no domingo, portas trancadas (vv.26-29);

B’ – Conclusão do Evangelho – testemunhar (a ressurreição) para que creias em Jesus como Cristo e Filho de Deus (vv.30-31.

 

A estrutura deixa claro: testemunhar a ressurreição, principal sinal de Jesus Cristo, Nosso Senhor, é o centro das narrativas finais. A diferença encontra-se entre A e A’, pois, na primeira aparição Nosso Senhor “sopra o Espírito” sobre eles. Entre este fato dominical e o próximo fato dominical, está o testemunho da ressurreição, feito pelos que receberam pelo sopro o Espírito, seguindo-se a cena da segunda aparição, onde se encontra o ensino de Nosso Senhor sobre a fé. Os que estão com o Espírito, no intervalo semanal, testemunham e, os que não creem, comparecendo à reunião dominical, são exortados, encontram o Ressurreto e podem ter a fé fortalecida n’Ele como Senhor e Deus.

Estes sinais finais do Evangelho passam-se no domingo (primeiro dia da semana; cf. Ap 1.10: “Dia do Senhor”). Como São João escreve na virada do primeiro século, já revela que as comunidades cristãs reuniam-se no primeiro dia da semana (não mais no sábado), por ser o Dia do Senhor, quando o Senhor Ressurreto se colocou entre os Seus, quando reunidos. As igrejas espalhadas pelo mundo celebravam neste dia a ressurreição com a celebração da Eucaristia (cf., At 20.7-12; 1Co 16.2). São João mostra que este costume comunitário está na perspectiva do Cristo Ressurreto, presente na comunidade, na celebração dominical, razão porque a Igreja se reúne aos domingos e não aos sábados. Ele esteve presente aos sentidos, nas duas primeiras, mas está presente à fé nas demais, pois “bem-aventurados os que não viram e creram”.

Descreve São João três gestos litúrgicos, permanentes até hoje nas celebrações dominicais das comunidades de fé:

1)     Saudação da Paz – “Paz seja convosco!”. Esta saudação repete-se três vezes como se fosse uma antífona (cf., 20.19,21,26), sendo, ainda, assim em muitas liturgias, três saudações da paz;

2)     Fundação da Igreja – comunicado da missão e “Soprou-lhes o Espírito” (v.21-22);

3)     Poder das Chaves – perdoar e reter pecados (v.23);

4)     Exortação à fé – expressa na palavra de Jesus Cristo ressurreto aos presentes, em especial Tomé (9 v.27);

5)     Confissão de Fé – “Senhor meu e Deus meu” (v.28);

6)     Bênção final – “Abençoados os que não viram e creram” (v.29).

São João descreve a presença real de Nosso Senhor, quando os Seus estão reunidos na celebração dominical. Mesmo que as portas estejam trancadas, Ele se faz presente. Aquele que foi morto (Ele mostra as Suas santas chagas) é o que está vivo e presente, acessível, não somente nestas duas primeiras celebrações, mas em todas as demais. Ele está acessível à fé e abençoa os que n’Ele creem e o confessam como Deus e Senhor.

Destaca, ainda, São João, que a fundação da Igreja é ação direta de nosso Senhor ao “soprar” sobre os discípulos reunidos no domingo o Espírito Santo. Mas destaca, ainda, que Igreja não é só reunião e celebração dominical. Igreja é missão. Ela nasce e se funda para isso: anunciar que Ele vive, ser testemunha da ressurreição. Entre a primeira e a segunda celebração dominical, temos o testemunho de que Ele ressuscitou. Igreja é celebração e missão, liturgia e testemunho, adoração (reunião dominical) e evangelização (dispersão semanal pelo mundo). Na celebração, pelo sopro do Espírito, renova-se o perdão dos pecados e o poder da Igreja em reter e perdoar, segue-se a pregação que testemunha a fé n’Ele, como ressuscitado, cuja consequência é a confissão de Jesus como Senhor e Deus. Desta confissão litúrgica vive o testemunho da Igreja no mundo, por palavras e sinais, assim como Ele mesmo o faz. São João, ao relatar que “as portas estavam trancadas”, muito provavelmente reflete a situação dos crentes na Ásia Menor, quando da perseguição a que estavam submetidos (cf. Apocalipse). Mas, mesmo esta situação, não impede nem inibe o testemunho.

Deve-se, ainda, destacar a questão das “provas da ressurreição”, expressas na apresentação, pelo Senhor, de Suas santas chagas. Tomé não as toca, conforme a exortação; ao contrário, o encontro com o Cristo Ressuscitado o faz cair de joelhos e confessar: “Senhor meu e Deus meu!”. O que faz a fé nascer ou se fortalecer não são “provas” materiais, mas o encontro com o Senhor Ressurreto. Este encontro nasce, primeiro, pelo testemunho, no mundo, dos que o encontraram e, afirma-se no encontro dos incrédulos com Ele na comunhão litúrgica dominical. Jesus Cristo, como Senhor e Deus, está disponível, não aos olhos, nem ao toque, mas à fé, único instrumento capaz de realizar o encontro entre o ser humano e o Senhor Vivo.

Não é somente para atender aos reclamos de uma fé incipiente que Jesus mostra os sinais de violência que sofreu no mundo (obs.: termo técnico em São João e quer significar o sistema construído pela humanidade, como forma de organização, e que se expressa por leis e instituições e que se opuseram à vida e à mensagem de Jesus, acabando por usar todos os aparatos de que dispunha para crucificá-lo). Ele ainda encontra-se com estas marcas, mas elas não o retiveram e nem o impediram. O martírio que sofreu por causa da Sua missão, não logrou o resultado desejado pelo mundo. Cumpriu-se, no ver de São João, a promessa de Nosso Senhor (cf., 14.19) e isso trouxe de volta a alegria à comunidade dos discípulos.

Jesus, Nosso Senhor, está realmente presente nesta comunidade, não mais de modo corporal, mas acessível a todo o que crê, ainda que não veja, pois em São João Páscoa e Pentecostes acontecem como que simultaneamente: o Ressurreto se apresenta aos Seus, concede-lhes o poder do Espírito e os envia ao mundo para anunciar o Evangelho da Paz. Assim podem os discípulos se sentirem seguros ao serem enviados em paz para a missão no meio do mundo, eles poderão enfrentar o martírio também. Eles devem dar continuidade à missão de seu Senhor, sair das quatro paredes, levantarem-se do medo, agirem com fé. Assim, a oposição aqui não é somente entre ver e crer, mas entre medo e fé. Acolher a missão é superar o medo e se lançar no mundo violento pregando o Evangelho da Paz. Para tal, agora, contam com o outro Consolador, o Espírito Santo, soprado sobre eles para testemunharem a Jesus Ressuscitado (cf., 14.16-17). "Os discípulos" ou ainda "todo aquele que n'Ele crê" designa aqueles que formam uma comunidade que, por fé n'Ele, reúne-se à Sua volta. Esta ideia é a mesma designada, no restante do NT, pela palavra Ek-klesia (Igreja). Quem atrai os discípulos para Si é Jesus, Nosso Senhor (cf., 1.35-42), mas estes podem também ser atraídos pelo testemunho de outros discípulos (cf., 1.29-31; 1.43-51). Entretanto, tal encontro só se dá por obra de Deus, o Pai (cf., 5.37; 6.37, 65).

Em São João, discípulo é muito mais que "aluno" ou "aprendiz". Tais alunos tinham os outros rabinos de Seu tempo. Discípulo é aquele que esposa a doutrina do Mestre, mas também aderem à Sua pessoa. Os "judeus" são "alunos" de "Moisés" (cf., 9.28) e pensam esposar as suas doutrinas, mas os seguidores de Nosso Senhor, "os discípulos", compartilham de Sua vida, Sua causa, Seu destino, e passam a segui-Lo por fé, visto que n'Ele está a "luz" (cf., 1.1-14; 3.16-21) e as palavras de "vida eterna" (cf., 6.68). Eles se ligam ao Mestre não pelas ideias em si, mas por causa da "Vida" que d'Ele recebem. São "discípulos", não por mera "razão", mas por "imitação", recebendo sempre a ordem de Jesus: "assim como eu fiz, façais vós também" (cf., 12.26; 9.4; 13.13-17; 15.14). O sentido seria este: Jesus, Nosso Senhor, faz as obras do Pai (cf., 5.19; 8.29; 10.37), que o enviou; os discípulos o imitam e, assim, realizam de Cristo (cf., 15.5); deste modo, estendem uns aos outros, e aos demais, as obras de Deus (cf., 14.12-14). As obras de Cristo são "verdade" e, por isso, frutos do "amor", razão porque são as obras de Deus (cf., cap.8). De outro lado, as obras do "mundo" são "mentira" e, por isso, frutos do "ódio", razão porque são as obras do diabo que é o pai da mentira e é homicida desde o princípio (cf., 8.42-47). Assim, os discípulos, são "livres" porque conhecem "a verdade" (cf., 8. 31-32), e esta verdade não é uma ideia ou um conceito, mas uma pessoa: o próprio Jesus Cristo (cf., 14.6). Por isso, ao chamar para si "discípulos", Jesus, Nosso Senhor, os faz conhecer o Pai (cf., 14.8-11).

Todo este "conhecimento" de Deus que Jesus, Nosso Senhor, dá aos Seus "discípulos" está baseado no Seu conhecimento de Deus como Abbá, Pai (cf., 3.35; 5.17,20,37; 8.49; 10.15, 30; 12.49; 14.6,9,20; 16.3,15,32). Em São João isso significa dizer que o conhecimento de Jesus, do Pai, se dá por causa de Sua fidelidade para com Ele. Ele é obediente ao Pai e isso revela o Seu conhecimento de Deus Pai. Ora, para a mentalidade do hebreu piedoso conhecer a Deus é cumprir os Seus mandamentos. Destarte este "conhecimento" é algo prático e não teórico, racional ou filosófico. Fica explícito este conhecimento que Nosso Senhor tem de Deus como Pai, quando se submete à Sua vontade diante da cruz (cf., 10.17-18). O "caminho" que Cristo mostra a Seus discípulos, não é outro senão o de um conhecimento prático do Pai, caminho este que passa pela cruz, como atestam as Suas santas chagas expostas a São Tomé. Por isso, exige dos que o seguem que amem-se uns aos outros (cf., cap. 13), pois é por causa do amor (cf., 3.16) que Ele se submete à cruz em favor de muitos. Em São João, "conhecimento" de Deus é uma questão prática e não teórica; não é uma doutrina, mas vida (cf., 1.8; 3.31-35; 15.14-15; I Jo. 1.1-3; 2.4-6; 4.7-12).

Nosso Senhor Jesus, em São João, veio para reunir, entre todos os povos, os discípulos que o Pai lhe der, assim como um Pastor reúne, à Sua volta, um "rebanho" (cf., 10.1-16; 11.47-53), sendo estas duas primeiras reuniões dominicais, o início de muitas e muitas outras congregações de discípulos. Aqueles discípulos que o seguiam nas terras da Palestina são os primeiros componentes do único rebanho que se seguirá. As "ovelhas dispersas de Israel" e "as de outro aprisco" (os gentios) formam um todo unitário, indissolúvel e completo (cf., 17.6,20-24). Para tal há que haver a imitação de Cristo na vida dos discípulos, pois o rebanho que se forma em torno de Jesus, o único Pastor, se faz e perfaz pelos discípulos em ação (cf., 13.12-16). Isso significa dizer que discípulo o é somente na missão, dando prosseguimento ao discipulado de Jesus Cristo, nosso Senhor, estabelecido aqui, de forma conclusiva, ao final do Evangelho de São João.

Duas realidades se fazem, ainda, na celebração dominical: a paz e a alegria. Elas estão antiteticamente colocadas ao medo e à tristeza (abatimento). Ele venceu o mundo, conforme prometera (cf., 16.11,33). Foi perseguido, maltratado, mas está vivo e presente. Esta, certamente, era uma confortante mensagem de São João à igreja perseguida a qual se dirige. Esta paz se sobrepõe ao medo (da violência) e se manifesta em grande alegria (que o mundo não pode entender). A presença do Espírito, além disso, leva os Seus ao testemunho que convence o mundo: do pecado, da justiça e do juízo (cf., 16.8-15). A paz e a alegria formam o poder do Espírito no coração que crê, capaz de enfrentar o mundo na esperança de o vencer, como Ele venceu e hoje vive. Este testemunho é a confissão que Ele é o Senhor! O único Senhor! Os discípulos estão aterrorizados, com medo da violência do mundo e de sua crueldade, pois Jesus acabara de ser julgado e crucificado de modo injusto e brutal. Jesus deve ser reconhecido como Aquele que traz a paz para o meio da comunidade perseguida, pois não é uma paz como o mundo dá (cf., 14.27). Ele prometeu que voltaria para os Seus e não os deixaria órfãos (cf., 14.18), o que significa que esta paz deve ser vivida pela comunidade, não de modo intimista, mas sendo um bem espiritual deve ser paz partilhada com o mundo que promove violência e medo, testemunhando que Ele é Senhor.

São João, em sua fórmula de conclusão (vv. 30-31) descreve os “sinais”, para “comprovar” que Jesus é o Cristo e o Filho de Deus. Ora, se escreveu para tal, é porque há dúvidas sobre o fato. Note-se que no 4º Evangelho todos consideram os sinais como maravilhosos, mas não compreendem o seu sentido pleno (cf., multiplicação de pães, a cura do cego, a revelação no Poço de Jacó). Ele é visto como alguém especial, um profeta, alguém que pode ser proclamado rei, mas nunca como o Filho de Deus ao realizar um “sinal” (cf., 5.19). O povo consegue ver o efeito de um poder misterioso, mas não consegue discernir o autor de tal evento, ou seja, que Deus está agindo por meio de Jesus, Nosso Senhor. Os “sinais” fascinam e todos querem tirar uma vantagem disso (cf., 6.26,30-31), mas sem que isso produza fé nas pessoas (cf., 12.37). Assim, em São João, não adiante muito “ver” os “sinais”, eles são dúbios e carecem de explicação (no caso, pregação, proclamação, ou, simplesmente, “palavra” que suscita convicção e conhecimento). Somente vêm a crer em Jesus, Nosso Senhor, como o Filho de Deus os que compreendem, entendem e/ou percebem a presença ou a “glória de Deus” (outro termo técnico em João) além do evento ou fenômeno descrito como “sinal”: não adianta ver o sinal se não se consegue ver a glória de Deus agindo por meio do sinal.

Em São João o sinal é um evento cujo significado não aparece à primeira vista, mas cujo sentido somente pode ser definido e compreendido pela fé, ou seja, não é fato autônomo resultante de um poder sobrenatural, mas é Deus agindo por Jesus trazendo aqui e agora o mundo por vir, o mundo salvo, ou, simplesmente, a salvação. Segundo as palavras de Nosso Senhor, nenhum dos que o Pai o enviou veio a se perder, senão o filho da perdição, razão porque os sinais são eficientes, se acompanhados da devida palavra (explicativa ou elucidativa) para os que são escolhidos por Deus, mas, para os demais, motivo de confusão, ira, perseguição dos que são da fé, pois não conseguem ver além do sinal e sentem o poder que ele encerra ameaçar o lugar onde se encontram. Por isso, em São João, há uma certa tensão entre “crer” e “ver”, ou seja, entre aquilo que se vê e aquilo que se crê, uma tensão entre 1.14 e 20.29 (vimos a Sua glória  X  feliz quem não viu e creu). Tal tensão está posta no fato do evangelista perceber em sua geração (ou comunidade?) um modo de fundamentar a fé na visão (cf., 4.48), e a necessidade de fundamentar-se a fé no testemunho fiel que é dado pelos apóstolos.

Uma fé que se fundamenta no que pode ver é uma fé destituída de sentido e baseada em interesses que, segundo Jesus Cristo, Nosso Senhor, reflete a própria natureza humana decaída e cega, que não pode ver o óbvio (cf., 2.23-25), seria uma fé dedutível de fatos materiais e, por isso, enganosa. Assim, o problema de Tomé, que acaba se atrasando para o encontro (cf., 20.24), reflete, não somente, os problemas daqueles que virão depois, e que terão que crer sem poder “ver e apalpar” o Verbo da Vida (cf., 1Jo 1.1-4), mas da própria geração que esteve com Jesus, Nosso Senhor. Assim, esta perícope trata de um problema real de todas as gerações cristãs: apesar da encarnação histórica de Deus em Jesus Cristo, a fé, segundo São João, era, é e sempre será um ato de confiança ou de autoentrega incondicional à Palavra, à verdade revelada (cf., 10.27) no testemunho dos apóstolos, pois Ele é o Verbo feito carne que mostra a glória de Deus (cf., 1.14), o instrumento divino que revela a Palavra de Deus aos seres humanos.

São Tomé, um dos doze (11?) discípulos, não crê na palavra testificada pelos demais apóstolos, acrescentando-se, ainda, que os mesmos teriam visto um “espírito” (cf., Lc 24.17) como era corrente se dizer nas camadas gnósticas que perpetravam as comunidades nos tempos de São João (note-se que João combate exaustivamente, com metodologia platônica e/ou gnóstica, os próprios pressupostos gnósticos, para provar que Jesus veio em carne, 1Jo 1.1-4, 2.22, 4.2-3). São Tomé é, pois, uma tensão dialética entre a fé que precisa tocar na carne (gnosticismo), caso contrário não acredita na ressurreição corporal de Jesus, Nosso Senhor, e a fé que acredita na palavra testemunhal dos apóstolos, mas não deixa de necessitar de “sinais”, pois existem mal-entendidos ou dúvidas que necessitam de esclarecimento.

Em duas outras passagens em São João caracterizam São Tomé como alguém que se cerca de mal-entendidos:

1)     João 11.7-16 – entendem o discipulado como algo partidário, como um martírio político, sem entender que o mesmo tem sua meta na fé;

2)     João 14.5 – não compreende que Jesus, ao ir para a cruz, está indo para o Pai, o que vai aparecer no relato da ressurreição, pois julgava que a morte colocava fim ao projeto de Jesus, razão porque ele exige um toque, ou alguma comunhão terrena/corporal/sensorial com Jesus Ressurreto, visto que todos custavam a crer, no fundo, que Jesus estivesse no Pai (cf., vv.10-11), mas nem mesmo os “sinais” permitiram isso aos discípulos.

São Tomé não compreende, como São João, que a exaltação para o Pai corresponde a ser erguido na cruz (cf., 12.32), razão porque não compreende o testemunho desta exaltação na mensagem pascal dos discípulos. Assim como São Tomé entendeu a fé como fidelidade terrena até à morte (cf., 11.7-16), como havia visto Nosso Senhor Jesus Cristo morrer, não conseguia acreditar em como poderia vê-lo vivo outra vez, sem entender que a presença do Cristo Ressurreto entre os Seus não é corporal mas, por meio do outro Consolador, capaz de fazer lembrar tudo o que Ele dissera, razão porque necessita tocar/sentir Jesus, nosso Senhor para ter fé. São João coloca esta aparição de Jesus Ressurreto a São Tomé, e aos demais discípulos, como “sinal derradeiro” de Nosso Senhor Jesus Cristo, exigindo dos discípulos que tenham “??????” ou “????????????”, assim, não apareceu aos discípulos como um modo de cumprir uma condição à fé, caso contrário, a exortação para ser “crente” não teria sentido algum.

Nosso Senhor, ao aparecer a São Tomé, o coloca diante de uma opção, de uma decisão, ou de uma escolha: mostrar-se crente ou incrédulo. Mas, no ver de São João, todos os demais sinais realizados por Jesus, Nosso Senhor, exigiram a mesma decisão: eles podem levar à fé em Jesus como Cristo, como o enviado de Deus (do Pai), ou a um mal-entendido fazendo de Jesus, Nosso Senhor, um meio ou instrumento de benefícios e vantagens e nada mais. A fé condicionada pela visão de um sinal é relativizada por Nosso Senhor que valoriza a fé que crê sem ver/tocar/sentir, por isso, São João relativiza, em todo o 4º Evangelho, o seguimento de Jesus, Nosso Senhor, que nasce de sinais externos, pois ser um “discipulado” condicionado por sinais. A fé que exige, pois, Jesus, Nosso Senhor, no Evangelho é uma fé incondicional que se fundamenta em Sua Palavra, pois São Tomé passa a crer e O adora, assim como o cego de São João 9.1ss, porque Nosso Senhor fala, afirma, testemunha, ser Ele o Filho de Deus (testemunho que é dado pelos apóstolos após a ressurreição de Cristo).

Crer que Jesus, Nosso Senhor, é o enviado do Pai e que revela a glória de Deus é ato de fé que exige entrega total ao Senhorio de Jesus. Mais uma vez estaríamos diante das ciladas mostradas pela relação fé-sinais na aparição a São Tomé, pois, mais uma vez poder-se-ia colocar mal-entendidos, visto que sinais não geram fé em si mesmos, o segredo da perícope, pois, está em identificar o Jesus Crucificado com o Cristo Ressurreto, em saber que Aquele que vive foi Aquele que foi erguido na cruz e traz no Seu corpo as marcas da violência deste mundo. O Deus invisível estava no Jesus Crucificado, atesta isso o testemunho apostólico de que Ele vive, ressuscitou dentre os mortos, fato para o qual é exigida fé e não provas, fé e não sinais, fé que é entrega incondicional a Ele como Senhor e Deus.

Outro segredo do texto está na Palavra de Jesus, Nosso Senhor, que provoca em São Tomé a confissão correta no crucificado como ressuscitado, expressa na resposta do anteriormente incrédulo: Senhor meu e Deus meu; em nenhum outro lugar Jesus recebe tal titulação: Senhor. Somente nesta confissão de São Tomé, onde o mesmo declara a unidade entre o Jesus Crucificado e o Pai. Tal confissão e comunhão com Jesus Ressuscitado ocorrem no primeiro dia da semana, e não em outro dia, ou seja no Domingo. A fé no Jesus Crucificado, como Cristo Ressuscitado, acontece na comunidade da fé, reunida no Domingo, para ouvir o testemunho das Escrituras sobre Jesus Cristo e participar do partir do pão, nesta comunidade, assim reunida, age o Espírito que Jesus Ressuscitado soprou sobre os discípulos e fez descer sobre a mesma no Dia de Pentecostes, Espírito que é testemunha de Jesus, Nosso Senhor, pela palavra e pelo sinal, pelo testemunho apostólico e a celebração da Eucaristia, pelo perdão dos pecados e o engajamento na missão. Os sinais que devem acompanhar os discípulos não são outros, senão, a unidade e o amor.

São João quer no Evangelho, quer na Primeira Epístola, estar em luta contra os falsos mestres que não confessam a Cristo como vindo em corpo e, por isso, menosprezando o corpo dos irmãos não lhes oferece o suficiente para poderem sobreviver. Sinal da confissão correta é a prática correta. Não basta confessar a Cristo como Senhor, mas é preciso viver este Senhorio, dando-se aos irmãos assim como Cristo deu-se por todos. Só compreende o amor de Deus quem vive este amor. Jesus Cristo, Nosso Senhor, expressou isto claramente na Última Ceia, no Lava Pés e na Cruz, com a seguinte recomendação: como fiz Eu, façais vós também!



* Rev. Carlos Alberto Chaves Fernandes, ofa, é Presbítero da Diocese do Recife; Pároco da Paróquia Anglicana da Santíssima Trindade, em Copacabana, Rio de Janeiro; Venerável Arcediago Sul-Sudeste; Frei da Ordem Franciscana Anglicana (OFA).

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Última atualização (Sáb, 14 de Abril de 2012 01:32)

 


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