Jesus, Pão de Deus Que Vem a Nós! - Ven. Arc. Rev. Carlos Alberto
Pensamento do Clero

Jesus, Pão de Deus Que Vem a Nós!
Ven. Arc. Rev. Carlos Alberto (*)
A vida é a grande bênção de Deus. Ele abençoa a vida para que cresça e se multiplique logo ao início da criação. Para o ser humano não há maior valor que a vida, nem valor mais efêmero. A vida morre como a flor no deserto, como a fumaça que se dissipa, como a sombra que se desfaz. Mas, apesar disso, a vida é um dom sagrado, abençoado e protegido por Deus.
A vida necessita de realidade à sua volta que a sustente, mantenha e defenda. Ao abençoar a vida, Deus oferece à mesma as devidas condições de sua permanência. Ele cercou o ser humano com todas as maravilhas do paraíso para que a vida fosse tranquila, boa e feliz. Por isso a vida é dom de Deus, que brota da Sua riqueza, pois Ele é a fonte e o sustento de toda a vida. Viver com o Senhor é alimentar-se das fontes da vida. Apartar-se d’Ele é dar as costas à Árvore da Vida, sustento de qualquer existência.
Ao afastar-se de Deus entram em cena a morte e suas drásticas consequências. Os santos profetas já destacaram que a vida consiste em buscar a Deus, enquanto se pode achar. Mas o ser humano, desejoso de manter a vida por si e em si mesmo, deu as costas à fonte de todo bem, de toda boa dádiva e de todo o dom perfeito.
O Autor, Criador e Sustentador da vida não a abandonou ao próprio infortúnio, mesmo que esta tenha Lhe dado as costas. Deus enviou Jesus Cristo ao mundo, para que tivéssemos vida e vida em abundância. Por isso Ele nos deu vida, estando nós mortos em nossos delitos e pecados, por causa do grande amor com que nos amou. São João, por isso, compara Jesus ao Pão: como a matéria do pão sacia a fome e sustenta a vida, assim Jesus é o Pão de Deus que vem ao mundo para alimentar, manter e sustentar a vida.
O pão material, devemos buscar; mas, o Pão Espiritual, é quem nos procura, busca e encontra, saciando a nossa fome de sentido para a vida, de esperança para o viver e de fé. Jesus é o Pão de Deus que, vindo ao mundo, nos alimenta e nos salva. Por isso, uma das disciplinas quaresmais, apontada no texto do Evangelho desta Quarta-feira de Cinzas, está em abster-se da muita fartura e repartir o pão com o faminto. Devemos levar este pão a quem tem fome para que entendam que o Pão da Vida vem a nós, em nossa fome, para nos saciar a fome de Deus. Pois é isso mesmo que devemos enfatizar neste tempo de oração, esmolas e jejum... que estes elementos disciplinares de nossa vida espiritual devem ser experiências de serviço, conforme visa da Campanha da Consolação.
Os profetas criticaram o jejum como abster-se de alimentos, tão somente, mas elogiou o jejum que desfaz as ligaduras da impiedade, que cobre o nu, alimenta o faminto e não esconde a face de seus semelhantes (p.ex. Is 58).
Quaresma não é uma introspecção (uma mera imanência), mas uma prospecção (uma transcendência). A Santa Quaresma é transcender-se na direção do outro que jejua sem voto (por fome), que suplica sem orar (pois o suplício, segundo o Livro do Êxodo é a oração dos oprimidos), que reparte sem lucro (pois com nada fica da repartição).
Devemos lembrar o princípio de nossa ética diocesana:
Criados e destinados à perfeição, tivemos a natureza atingida pelo pecado, que nos trouxe a guerra, o racismo, a exploração econômica, a injustiça, a tortura (Lambeth, 1978), a injusta distribuição da riqueza do mundo, a injustiça social dentro das nações, o militarismo, a destruição do meio ambiente, a violência sexual (Lambeth, 1988). Confrontados pela Lei, exortados pelos profetas, ensinados por Cristo, pelos apóstolos e pelos mártires – heróis e heroínas da fé de todas as épocas – convencidos pelo Espírito Santo, tomamos consciência dos nossos pecados individuais, coletivos e estruturais, buscamos o perdão de Deus e a emenda de vida (Livro de Oração Comum), para podermos viver o Evangelho na sociedade, servindo ao Senhor com alegria.
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É permanente dever da Igreja: anunciar, por palavras e por exemplos, os alvos éticos da vida cristã, ensino, convocação e exortação, que inclui a admoestação aos empedernidos e a consolação aos fracos, na aceitação das limitações da humanidade e das possibilidades transformadoras da graça. Vale ressaltar que, como uma Igreja fiel às Sagradas Escrituras – inclusive em questões éticas, não podemos estar aquém, nem, tampouco, exigir além da Palavra de Deus. O(a)s personagens da fé da Bíblia, em sua diversidade, grandezas e misérias, continuam a nos motivar hoje, “sendo humanos e nada do que seja humano nos sendo estranho”, tendo como paradigma existencial maior Aquele que “foi humano em tudo, menos no pecado”.
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A disciplina anglicana tem rejeitado tanto o legalismo, com suas variadas listas de permissão e de proibição, quanto o moralismo com sua ênfase excessiva na afetividade e na sexualidade, em detrimento de outras áreas do comportamento. Reconhecemos que o ensino bíblico não nos permite estabelecer uma hierarquia de pecados, e que a melhor maneira de se evitar o mal é se ocupar com a prática do bem (santidade ativa vs. santidade passiva). A pastoral anglicana tem, crescentemente, entendido a importância do respeito à singularidade e à privacidade dos fiéis, e que o aconselhamento pastoral deve se dar, sempre que possível, respondendo às necessidades e iniciativas dos fiéis, com uma ética que pressupõe sigilo e discrição, e nunca publicidade e maledicência.
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Os anglicanos são exortados “a mudar, pessoal e coletivamente, suas atitudes e estilo de vida, reconhecendo que a totalidade da vida requer uma correta relação com Deus, com o semelhante e a criação” (Lambeth, 1988). Como novas criaturas, primícias da nova criação, devemos superar continuamente as obras da carne e evidenciar o fruto do Espírito em caráter, temperamento e atitudes: o amor, a bondade, o domínio próprio e o compromisso com a justiça e a paz.
Sigamos, assim, os doutos ensinamentos de nossos documentos canônicos nesta Quaresma.
Rio de Janeiro, 21 de fevereiro de 2012,
Anno Domini
Véspera da abertura da Quaresma
* Rev. Carlos Alberto Chaves Fernandes, ofa, é Presbítero da Diocese do Recife; Pároco da Paróquia Anglicana da Santíssima Trindade, em Copacabana, Rio de Janeiro; Venerável Arcediago Sul-Sudeste; Frei da Ordem Franciscana Anglicana (OFA).
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Última atualização (Qui, 23 de Fevereiro de 2012 08:39)

























