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Comunhão Anglicana

   

 ROWAN WILLIAMS, ARCEBISPO DE CANTUÁRIA, COM O BISPO ROBINSON CAVALCANTI 

 

ROWAN WILLIAMS

ARCEBISPO DE CANTUÁRIA

 

 

HECTOR ‘TITO’ ZAVALA

BISPO PRIMAZ

 

 

DOM EDWARD ROBINSON DE BARROS CAVALCANTI

BISPO DIOCESANO

"In Memoriam"

 

 

DOM EVILÁSIO TENÓRIO

BISPO SUFRAGÂNEO

2ª REGIÃO ECLESIÁSTICA

 

 

DOM  FLÁVIO ADAIR

BISPO SUFRAGÂNEO

1ª REGIÃO ECLESIÁSTICA

 

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SOMOS PARTE DO GAFCON

 

 

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Home Artigos Clero Cântico de ‘O Logós’ - Ven. Arc. Rev. Carlos Alberto

Cântico de ‘O Logós’ - Ven. Arc. Rev. Carlos Alberto

Pensamento do Clero

 

Cântico de ‘O Logós’

Jo 1.1-14

Ven. Arc. Rev. Carlos Alberto (*)

Qualquer comentário do Evangelho de São João exaltará a beleza poética e teológica do chamado seu Prólogo, ou Proêmio, pois é mais que uma introdução ao Evangelho que será descrito, mas um resumo teológico perfeito de todas as afirmações que se seguirão no decorrer do 4º Evangelho. Tanto que este Santo Evangelho é formado por quatro principais divisões:

1) o Proêmio (capítulo 1º);

2) o Livro dos Sinais ou Semeias (capítulo 2 ao 12);

3) o Livro da Paixão (capítulo 13 ao 20);

4) e o Apêndice (capítulo 21).

As comunidades joaninas, dispersas pela Ásia Menor (cf., Apoc. 2-4; cf, também, 1Pd, carta que reflete o clima da Ásia Menor em relação aos cristãos neste local), são hostilizadas e perseguidas externamente e vive tensões internas, especialmente com o grupo espiritualizante (os gnósticos). Estes conflitos aparecem claramente no Evangelho de São João, visto que o objetivo determinado por seu autor é animar a fé dos crentes em Jesus como o Cristo Filho de Deus, de algum modo, debilitado por estas questões externas e internas.

 

Algumas destas questões estão presentes no Prólogo. Nota-se, além da questão gnóstica e do judaísmo oficial, que falaremos mais adiante, que há uma certa aproximação e um certo conflito entre as comunidades de São João e a comunidade dos seguidores de João Batista (cf., Jo. 1.7-8,15,19-22; 3.26-30; 5.33-36; 10.14). Somente em São João, o Batista afirma “confessando e não negando” que não é o Messias e nem o Profeta (escatológico). Ora se aceitarmos a tese de que São João escreve da Cidade de Éfeso, não podemos deixar de pensar no diálogo entre os seguidores de Nosso Senhor e os do Batista em Atos 19.1-6, onde vemos os discípulos do Batista sendo cooptado à fé cristã. Além do que o texto revela a dificuldade entre a messianidade de Nosso Senhor e do Batista. Isto levou alguns a crerem que o Evangelho da Infância em São Lucas, que faz de Nosso Senhor primo do Batista, é uma “arrumação” lucana que soluciona o conflito, colocando o Batista em linha de continuidade entre a Antiga Aliança e a Nova Aliança.

 

Seja como for, verdade é que o 4º Evangelho mostra que os primeiros seguidores de Nosso Senhor Jesus Cristo eram do grupo do Batista (1.35-42) sendo, mesmo o Nosso Senhor, colocado entre os que seguiam o Batista, visto estar entre seus discípulos, sendo batizado pelo mesmo. Não é sem motivo que os seguidores do Batista, nos sinóticos, questionam a Jesus e ao modo de se portar dos discípulos de Nosso Senhor Jesus Cristo (Lc 7.19) e, até o próprio Batista questiona a messianidade de Nosso Senhor, enviando uma comitiva, quando o Batista estava encarcerado, procurando argui-lo sobre o tema. Estas questões já aparecem no Prólogo, no Cântico do Logos onde Nosso Senhor é confirmado como é “a verdadeira luz”, e não o Batista, que “não era a luz”, sendo Nosso Senhor a Palavra (?????) e o Batista simplesmente “uma voz” (????).

 

O judaísmo oficial vai prefigurar no 4º Evangelho como sério opositor do Santo Evangelho e de Nosso Senhor Jesus Cristo, tipificados aqui, no Prólogo como “os que eram Seus” e que “não O receberam”. No decorrer do Evangelho de São João serão designados pelo termo técnico “oi Ioudaioi”, “os judeus”: os que rejeitaram a Jesus e o crucificaram (cf., 1.19; 5.16;). Reparem que os discípulos de Nosso Senhor, do ponto de vista da nacionalidade, era, como o Batista, judeus, mas são classificados por São João em grupo distinto de “???????????”. A estes Nosso Senhor fala sobre a nova “?????” (lei), não fundamentada na letra, mas baseada na graça e na verdade (1.17), razão porque os discípulos de Nosso Senhor Jesus Cristo serão expulsos “das sinagogas deles” (16.2).

 

Tal fato, segundo São João, se daria com os discípulos, pois a mesmíssima coisa aconteceu com Nosso Senhor (cf., 9.22; 12.42). Foram “oi Ioudaioi” que acusaram Nosso Senhor de violar o sábado, de heresia, blasfêmia, de pretender-se igual a Deus e de estar possuído pelo diabo (8.48). Neste diálogo Nosso Senhor os acusa de serem “???????????” filhos do diabo e não de Abraão, pois eram homicidas, mentirosos, deturpadores da lei e não davam ouvidos a Deus (cf. 8.39-47). São João desconhece que Nosso Senhor tenha nascido em Belém, mesmo se conhecesse, o fato é que nada diz sobre isso, ao contrário, faz questão de afirmar que Ele é de Nazaré, fato que causa escândalos aos “ioudaioi” (cf., 1.45; 7.52), e que serve de fundamento para negarem-lhe messianidade (cf., 7.27-28; 6.42).

 

Como existem relações diretas entre o Evangelho de São João e a I Epístola de São João e o Apocalipse. Nestes três textos existe a grande dificuldade da comunidade com os que são denominados de “???????????” (anti-cristos, cf. 1Jo. 1.18) e ??????????????? (falsos profetas, traduzido por Almeida por “falsos mestres”, cf., 1Jo. 4.1). Segundo se entende estes eram pertencentes à Comunidade de São João, mas a abandonaram, pois negavam a encarnação do Verbo (1.14; cf., 1Jo. 4.2-3). São João entende que este abandono da comunidade é uma mera questão “física”, pois, na verdade, “nunca foram” parte da mesma (cf., 1Jo 2.18-23). Os estudiosos, em geral, associam estes como os gnosticismos nascentes e que vai formando-se junto e, depois, paralelamente às comunidades cristãs.

 

Estes procuram “????????” (o conhecimento, ou a gnose). Julgavam que tal conhecimento somente poderia ser alcançado no mundo espiritual, no mundo da “??????” (essência ou ideia, assim, mundo das ideias, segundo o pensamento platônico). Este mundo que vemos, o mundo material, é marcado de mal e corrupção, não havendo na matéria bem algum. Por isso os gnósticos negavam a “encarnação do Verbo”, questão central do Prólogo joanino. Do Logos eternos, segundo aqueles, temos tão somente “emanações”, quando muito “aparições”, assim, somente pela “contemplação” poder-se-ia chegar ao Logos e, assim, unir-se a Ele que é, em si, a salvação.

 

Este processo significa deixar espiritualmente este corpo feito de matéria, por meio de algum tipo de êxtase, e atingir os estágios de espiritualidade, representado por várias camadas de “céus”, onde há uma potestade celeste dominadora (ou principado) que deve ser vencida pela ??????. O mediador deste processo seria o Logos. O gnosticismo serve-se do dualismo anticósmico entre o espiritual e o material, o bem e o mal, colocados antiteticamente onde a expressão “?????????????????????????” (e o verbo se fez carne, Jo. 1.14) do Prólogo do Evangelho de São João, seria um completo absurdo e, assim, suspeitavam que Jesus de Nazaré jamais poderia ser o Cristo, o Filho de Deus, fé que São João deseja fortalecer (20.30-31). Assim, o Messias celestial é o mesmo que, cansado, pede água à Samaritana no poço (Jo. 5), que chora tão humanamente pela morte de Seu querido amigo (Jo. 11), cujo corpo sangra e fere-se com os açoites e a coroa de espinhos (Jo. 19), pois não é a fuga do mundo proposta pelos gnósticos que salva mas a encarnação, o assumir a carne do mundo, como fez Nosso Senhor Jesus Cristo, que traz ao mundo a salvação. A expressão “?????????????????????????”, segundo Bultamann é “o tema de todo o Evangelho Segundo João” (TNT, pg.471).

 

Por todos estes motivos a unidade da comunidade encontrava-se abalada ou mesmo rompida por questões de ordem teológica e pessoal, daí a ênfase dada à questão do amor, quer na expressão “amai-vos uns aos outros”, especialmente nos Discursos de Despedida (Jo.13 a 17), insistindo que eles devem viver em unidade. Sempre que isso acontece o amor anda em perigo (1Jo.3 e 4), visto que visto que os ebionitas (“oi Ioudaioi”) e os gnósticos já tinham causado sérias fissuras no coração da mesma e as questões estavam ameaçando a unidade.

 

Outro conceito significativo em São João e que aparece no Prólogo é “??????” (v.10). Almeida traduz por “mundo”, que não deve ser confundido com meramente mundo criado, ou a criação, pois este é um conceito gnóstico profundamente combatido por São João. “Mundo” é a realidade que não admite Deus e está em oposição direta a Ele e, sendo este embate algo latente, Deus mesmo resolveu trazer o conflito à tona por meio da “??????” (krisis, 3.18-23), precipitou o debate ou o julgamento da questão, para defini-la. Deus resolveu colocar o mundo diante das suas próprias responsabilidades para obrigá-lo a uma tomada de posição, isto não significa que Deus tenha se colocado diante de um tribunal aos olhos do mundo, mas que Ele mesmo, Deus é o tribunal diante do qual o mundo deve se colocar, tornando tudo claro. ?????? quer justo significar isso, o julgamento, no sentido de um “corte”: a crise deste mundo, o seu julgamento, está feita em Nosso Senhor Jesus Cristo (3.16-23), que dividiu definitivamente este mundo, pois diante do Cristo não há meio termo, não há indefinição, não há posição outra senão amá-lo ou odiá-lo.

 

Segundo o Prólogo o “??????” jamais teve a “??????” do “?????” (v.10), ou seja, nunca o conheceu, pois preferiu as trevas à luz, a morte à vida, a mentira à verdade, a perdição à graça (cf., Jo. 1.10; 3.16-21; 3.35-36; 5.24; 12.31-32; 12.46-48). As pessoas preferem defender as suas obras más, mas para aqueles que são separados do “??????”, estes entram na “???????????” (vida eterna), pois assumem a sua própria realidade, podendo assumir a realidade do “??????” sem contradições, razão porque a morte é a sorte do mundo sem Deus. O termo “???” (zoé, vida) faz parte também do Prólogo (v.4) e assume contorno todo especial em São João, devendo ser entendido pelo mesmo conceito de Reino de Deus ou Reino dos Céus, dos sinóticos, pois quem passa por Nosso Senhor Jesus Cristo, a porta da salvação, quem n’Ele crer como o Messias, Filho de Deus, entra direto na vida, deixando a morte em que se encontra o mundo.

 

O termo “???????” (verdade), também funciona como termo carregado de sentido no Evangelho de São João. O termo ocorre 109 vezes em todo o NT, sendo que, quase metade estão no conjunto da obra joanina: 25 vezes no Evangelho e 20 vezes nas Epístolas; sendo que “???????” (verdadeiro) ocorre no NT 26 vezes, sendo 17 destas nos escritos de São João; e, “?????????” (verdadeiro, genuíno, fidedigno ou real) ocorre 28 vezes no NT, sendo 23 destas vezes em São João, especialmente no Apocalipse (20 vezes). Esta estatística mostra o valor do termo como um conceito fundamental em São João. Para compreender-se o sentido de “verdade” em São João não se deve desprezar o fato de seu paralelismo-dualista, muito próximo do método grego de análise. Em outras palavras, “verdade” está em contraste com “mentira” ou “aparência” ou “falsidade”. Como o “??????” é uma “sombra” ou “aparência” do mundo real, tudo neste mundo se marca pela “aparência” da verdade, ou seja, pela “falsidade”, pela “mentira”.

 

Quem conhece a verdade, liberta-se (cf., 8.32) da mentira, da aparência, da falsidade e passa ver as coisas como são e, principalmente, a si mesmo. O Prólogo joanino apresenta Nosso Senhor Jesus Cristo como “?????????????????????????????” (plèrês charitos kaì alètheias = pleno de graça e verdade, cf., v.14), reafirma-se no fato de a lei ter sido dada por Moisés, mas “?????????????????????????” (he charis haì he alètheia) por Nosso Senhor Jesus Cristo (cf., 1.17). Moisés quis ver a “????” de Deus, mas não o pode, tendo, posteriormente, de usar um véu. Quem desejar ver a “????” divina, deverá olhar para Nosso Senhor Jesus Cristo, pois esta está “fidedignamente”, “realmente”, “verdadeiramente” revelada (pode ser vista) n’Ele. Ver a glória divina e olhar para o rosto humano de Nosso Senhor. Deste modo deve-se ler Jo. 1.14-17 em relação a Êx. 34, cujo contexto é “ver a Deus”: Deus estava em Cristo, dando na Nova Aliança aquilo que era impossível na Antiga. Não é na lei que temos refletida a vontade de Deus, ou a verdade sobre Deus. Quem quiser “ver a Deus” olhe para Jesus de Nazaré, Ele liberta (cf., 8.36), ou, faz ver (cf., 9.39-41), pois o Seu testemunho é “verdadeiro” (cf., 5.31-32).

 

Deve-se distinguir, em São João, “verdadeiro” é diferente de “sincero”. Na passagem da Samaritana, Nosso Senhor afirma que adoradores “verdadeiros” adoram em espírito e “em verdade”. Não está aí a criticar os samaritanos por serem insinceros, mas na “aparência da verdade”, ou seja, “falso” (cf., C. H. Dodd – A Interpretação do 4º Evangelho, pág 175). Neste caso “verdadeira” adoração é aquela que “confere com o original”, no mesmo sentido dado por Filo de Alexandria (judeu-helenista e filósofo) que compara o “Deus verdadeiro” com uma “moeda genuína”, em contraste com a “falsa” (cf., C. Brrown – NDTNT, vl. IV, pág 710). A “sombra” e o “real”, o “falso” e o “verdadeiro”: um escraviza e torna cego, a outra, ilumina e liberta. Nosso Senhor, pois, não fala ou aponta para a “alèttheia”, Ele é a “alèttheia”. Não a revela no sentido de apontar na sua direção, mas em mostrar-Se, revelar-Se: Ele é a “alèttheia”. Quem desejar conhecer a “?????????” (alèttheia = verdade) deve conhecê-lo, no sentido de “recebê-lo” que, nada mais é do que “crer em Seu nome” (v.14). Ele é o “Logos” e “??????????????????????” (“he logos he àleithaeià “ = a Tua palavra é a verdade, cf., 17.17). Por isso o Verbo eterno “ilumina”, faz ver a verdade como é, faz-nos ver como somos, dá “conhecimento” (cf., 8.32-36), pois Ele diz a verdade e dá testemunho dela (cf., 8.40,45-46; 18.37), pois Ele é a verdade (cf., 14.6). Na medida em que mostra a verdade, descobre a mentira.

 

Esta é a razão porque o Prólogo relaciona “??????????????????????” (graça e verdade). A verdade é a graça divina que torna o ser humano livre, ser achado pela “??????” é encontrar a “alètheias”. A graça de Deus é a verdade de Deus, mas não são nem idéias, nem essências, nem raciocínio lógico, ou seja, não é uma verdade reflexiva, nem uma especulação. A “??????????????????????” (graça e verdade) é uma Pessoa: Nosso Senhor Jesus Cristo. Encontrá-lo é, assim, encontrar-se, ser restituído ao seu estado “original”, no sentido de “verdadeiro”, libertando-se da aparência da verdade e, por isso, da escravidão cega. Aproximar-se d’Ele é aproximar-se da “luz” que ilumina e faz ver. Afastar-se dele é permanecer nas trevas e não poder ver-se, não encontrar-se, permanecer nas obras e fugir da graça. Por isso São João afirma que Moisés deu a lei, mas Nosso Senhor Jesus Cristo dá “??????????????????????” (graça e verdade).

 

Outro conceito importante no Evangelho de São João aparece no Prólogo: “dóxa” (glória). Este termo aparece 18 vezes no Evangelho e 17 no Apocalipse, sendo que em 1, 2 e 3 João, o termo “??????” (glorificar) é referido 23 vezes, ou seja, proporcionalmente ao material escrito, São João é o que mais se utiliza deste conceito, pois tem função crucial em sua obra. Pode ser traduzido por “honra”, “fama”, “esplendor”, “glória”, “majestade” e mesmo “poder”, no sentido de “majestade gloriosa”. São João liga este conceito com a encarnação e, por isso, a frágil humanidade assumida por Nosso Senhor. A “????” foi vista no Seu rosto humano e não no céu, nas alturas, na eternidade, como acontecia no mundo grego e, especialmente no gnosticismo que associa a “????” ao não-mundo, à não-realidade que se vê, mas ao céu, ás regiões celestiais. Pois para São João a “????” não é a contemplação celeste do “Logos”, mas ver a revelação divina do rosto humano de Nosso Senhor, nele está o Unigênito Filho de Deus. O “Logos” encarnado revela, mas somente de modo visível aos que “crêem em Seu nome” a “????” (cf., 2.11). No homem Jesus de Nazaré Deus já o “??????” (cf., 12.28: “já o glorifiquei”). Todo o Evangelho de São João irá refletir isso nos “discursos” de Nosso Senhor Jesus Cristo. Eles geram duas ordens de coisas: confusão nos que não crêem e revelação aos que crêem. Uns crêem n’Ele, outros O denunciam (cf., 11.45-46).

 

A glorificação do nome de Deus encontra-se na encarnação, cujo objetivo revelador se dá na crucificação. Se os gnósticos entendiam que a “dóxa” se dá, somente no alto, este “lugar alto”, para São João é a cruz, onde o Filho é glorificado que Ele glorifica o nome do Pai (cf., 3.14; 7.39; 8.28; 12.16,23,28, 32 e 34; 13.31-32; 17.1-4). Encarnação-crucificação glorificam, simultaneamente, Pai e Filho, pois ratificam a “graça” e a “verdade” de “?????????????????????” (“ò logos sarch ègeneto” = a palavra se fez carne, v.14). A “????” de Deus é a “????” de Nosso Senhor Jesus Cristo (cf., 13.31-32), pois o que foi glorificado é o Jesus de Nazaré, o “??????????” (glorificado) é o “?????????????” (encarnado). A morte de Nosso Senhor é a conclusão do que se iniciou na encarnação, é a sua afirmação e a glorificação de Jesus de Nazaré e, n’Ele, de Deus. O Prólogo antecipa o que será demonstrado em todo o corpo do Evangelho: a vida passada de Jesus de Nazaré não é, tão somente, um fato histórico, mas verdade presente, o evento escatológico da história. Assim, para “ver” esta “glória” é fundamental “crer em Seu nome” (v.14), caso contrário não se pode “ver”, pois a fé é o fundamento desta visão ou revelação.

 

Feitas estas revisão de conceitos, vejamos algumas observações importantes do Prólogo do Evangelho de São João. Ele se baseia, provavelmente fazendo suas interpolações, em um Hino Cristológico antigo e anterior ao Evangelho. Para a maioria dos especialistas (H. Brandt, W. J. Dietzfelbinger, S. Schulz, etc), o Hino Original contava de suas estrofes, assim divido:

1ª – vs. 1,3 e 4: No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez. A vida estava nele e a vida era a luz dos homens.

2ª – vs. 5, 10-12a: A luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela. O Verbo estava no mundo, o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o conheceu. Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus.

Sendo que a este cântico existe uma resposta comunitária, por haver mudança do sujeito para “nós”, como responso testemunhal da comunidade que manifesta a sua fé em Nosso Senhor Jesus Cristo como o Logos divino:

3ª – v. 14: E o Verbo se faz carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade e vimos a Sua glória, glória como do Unigênito do Pai.

 

Assim como os cânticos de Col. 3, ou de I Co 15, este é um cântico que é anterior a São Paulo e São João e refletem a liturgia, da teologia e da cristologia primitiva da Igreja. Mesmo que haja outros modos de julgar as interpolações, a forma acima apresentada é bem plausível. Nela proclama-se Jesus como o Verbo Eterno e Divino, Mediador da Criação, Vida e Luz dos Seres Humanos, Vencedor Sobre as Trevas e Veio Para Os Seus e os fez Filhos de Deus. Segundo Bultmann o conceito joanino é retirado de Filo de Alexandria onde “‘Palavra’ e ‘Sabedoria’ aparecem lado a lado” e “a figura do Logos não tem apenas função cosmológica, mas também soteriológica” (TNT, pág 498-499). Deve-se lembrar, para bom entendimento de alguns conceitos joaninos, o mito gnóstico que diz que poderes demoníacos apoderam-se de uma figura de luz, originária do mundo celestial, que se espalha em centelhas; estas centelhas são “eus” individuais que, libertados da matéria e reunidos outra vez, formam um corpo ou a figura originária sendo esta a redenção de cada qual destas pessoas. Mas as forças demoníacas não permitem tal reunião, então, desce dos céus outra figura de luz, o Filho do Altíssimo, de quem Ele é a imagem, trazendo uma “gnose”, por meio da qual Ele “desperta” as centelhas adormecidas nas pessoas, fazendo-os “lembrar” da “pátria celestial”, fazendo-os “nascer de novo”. Ele, ainda, os instrui sobre a volta para a Casa do Pai, em como poderão vencer os vários estágios das regiões celestiais, indo, Ele mesmo a frente para abrir o “caminho”, sendo Ele mesmo, caminho e verdade para a vida (cf., Bultmann, R. – TNT, pág. 220-221).

 

Nota-se, no cântico, a influência de Filo e do mito gnóstico, recriado pela comunidade nascente e reinterpretado por São João. Mas, a afirmação central do cântico é que, diferente do mito gnóstico, Ele não é uma aparição, mas uma encarnação: Nosso Senhor é verdadeiramente um ser humano, uma pessoa de carne e osso. Sendo este o responso comunitário ao cântico na forma de uma confissão de fé. Como tal profissão de fé é comum a todo o NT (cf., 1Tm 3.16; Fp 2.6-11; Lc 2.11; Hb 1.1-4, etc), suspeita-se que este responso seja a “cristianização” do Cântico. Contrariando o gnosticismo, São João e sua comunidade afirmam que Deus veio em Nosso Senhor, assumiu a carne humana e a sua história, desejoso de redimi-la, pois “Deus amou o mundo” e nunca o desprezou ou rejeitou, ao contrário, mesmo que este mundo esteja de costas para Ele, Ele veio ao seu encontro. Ele veio revelar-se no humano. Ver Deus é ver o rosto humano e amigo de Nosso Senhor Jesus Cristo. O rosto frágil e fraco, vencido pelas forças deste mundo, mas a quem deus ressuscitou pela força de Seu poder. Esta solidariedade divina é a salvação. Assim, “kai ò logos sarch ègeneto” (v.14) nega a união temporária entre o Logos e Jesus de Nazaré, como pensavam alguns, ou um suposto “corpo aparente” de Nosso Senhor, por isso, aquele que “não confessar que Jesus Cristo veio em carne, não é de Deus” (cf., 1Jo 4.2-3), quem nega que o ser humano Jesus de Nazaré é o Filho de Deus vindo dos céus, o Verbo Eterno que estava na criação, ensina falsa doutrina de um anti-cristo (2Jo v.7).

 

No Prólogo São João afirma a preexistência de Nosso Senhor Jesus Cristo, aplicando-lhe os conceitos do Verbo Eterno (v.1; cf. 8.56-58 e 17.5), este como Vida (v.4; cf. 11.25 e 14.6), esta como Luz (v.4-9; cf. 3.19-20, 8.12, 9.5 e 12.46), sendo Ele o Unigênito (vs.14 e 18; cf., 3.16 e 18). A primeira parte do Evangelho de São João, chamado de Livro dos Sinais, demonstrar o que o v.11 afirma: nem por sinais os Seus (“oi Ioudaioi”), creram n’Ele. Sendo que o v.12 mostra que a segunda parte do Evangelho, chamada de Livro da Paixão, cumpre o que está dito no v.12: “a todos que O receberam deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber: os que crêem no Seu nome”, visto que esta sessão relata as palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo aos Seus discípulos.

 

A expressão que abre o Prólogo, ou seja, “????????” (En arché = No princípio), liga o Evangelho de São João a Gênesis capítulo 1º e este paralelismo evidencia-se na seqüência do restante do cântico: a criação (v.1; cf., Gn. 1.1); a luz (v.4-9; cf. Gn. 1.3-4a); a oposição entre luz e trevas (v.5; cf., Gn. 1.4b); os seis dias da criação (primeiro dia Jo. 1.29, segundo dia 1.35, terceiro dia 1.43, os três dias restantes 2.1, somando-se seis dias; deve-se levar em conta estes números e estas contagens pois, de algum modo o cabalismo numérico está fortemente presente em São João, mormente demonstrados na numerologia do Apocalipse). Para São João, Nosso Senhor Jesus Cristo faz uma nova gênese, uma nova criação, um novo mundo, fazendo renascer a humanidade, ou o “novo homem”, com o poder de serem “filhos de Deus”.

 

Assim Ele dá, ou concede, vida (???) aos Seus, pois é o Bom Pastor (cf. Jo. 10), que as reúne numa unidade, dando Ele mesmo a Sua vida por elas para que tenha vida “e vida em abundância”. Como já dissemos São João aproveita-se do conceito gnóstico de “?????” (“Verbo”, no sentido de “Palavra”) e tão somente ele faz isso no NT e, mesmo assim, exclusivamente no Prólogo, sendo que na sua 1ª Epístola em 1.1 e no Apocalipse 19.13. Mas como São João faz um paralelismo com a criação no Livro de Gênesis, está relacionando Nosso Senhor Jesus Cristo, com a Palavra Criadora de Gênesis 1. Esta “palavra” é criativa e dinâmica. A Bíblia, como um todo, não conhece outro modo de Deus relacionar-se com o mundo e os seres humanos que não seja o conceito de "palavra". Como todas as vezes que Deus se relaciona com ambos acontece o que se chama de "revelação", pode-se concluir, sem medo de errar, que "palavra" na relação divina é o mesmo que "revelação": Deus relaciona-Se e mostra-Se pela "palavra". Por isso, ensina as Escrituras Sagradas, não se pode esperar outro modo de revelação divina senão pela Sua "palavra". A noção deste conceito não pode ser racionalizado ou intelectualizado meramente, nem tão pouco pode-se limitá-lo à conceituação "verbal" do termo. “???????” na filosofia grega refere-se à razão ou idéia incriada e eterna; mas em São João a Palavra é um fenômeno histórico singular que, mesmo descendendo da eternidade divina encarna-se na realidade humana assumindo-a em sua totalidade. Por esta razão, diferentemente do conceito grego, a Palavra divina é questionadora, inquiridora, interpeladora da vida humana e da realidade do mundo. Enquanto no mundo grego a "palavra" remete o ser humano para uma realidade eterna (como sua expressão intelectual), em São João ela é a própria realidade, ela é evento histórico, não é idéia, mas fato concreto, na verdade é uma pessoa de carne e osso: Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

A revelação é, antes de tudo, um fato histórico e, como um todo, tal fato é a Palavra de Deus. Por isso São João dirá que “nós vimos a Sua glória” (v.14). O que se está procurando ressaltar é que no entender das deste Santo Evangelho “???????” é muito mais que um discurso, uma pregação, um conceito, uma idéia que pode ser expressa verbalmente e, por isso, racionalmente. A Palavra de Deus é mais que um discurso, Ela é ato divino. Num jogo de termos, poder-se-ia dizer: Deus age pela Sua Palavra e fala pelas Suas ações. Por esta razão as duas principais sessões do Evangelho de São João mostram a ação e a humanidade de Nosso Senhor, “?????????????????????” (ò logos sarch ègeneto = o verbo que se fez carne, v.14).

 

Na medida em que a Palavra é fato histórico, concretizado numa pessoa, como tal, só pode ser vivenciada, pois a história é para ser vivida, ela é a nossa existência. Por isso a palavra não é tinta e papel, Palavra de Deus é uma Pessoa que assumiu uma realidade histórica e, com isso, mostrou a "glória de Deus". Quem tem vida só a tem n’Ele, assim como os Ramos e a Videira (v.15). Por vivenciar a Cristo o cristão tem a ??? (vida) em si mesmo, pois ele se alimenta d’Ele, come a Sua carne e bebe o Seu sangue (cf., Jo. 6).

 

Não se pode negar que quando Deus toma a Palavra há uma transmissão de conhecimento, ou da “??????”. Ao comunicar a Sua Palavra Deus confere ao ser humano verdade, sabedoria, ciência, entendimento. Ela traz consigo uma certa dose de informação. São dois os conhecimentos que ela transmite: um sobre Deus e outro sobre aquele que recebe esta Palavra. Ao mostrar Deus ela é "revelação", pois sempre remeterá o ser humano Àquele que a enviou e/ou pronunciou. Neste encontro com a "revelação" de Deus o ser humano descobre-se (aliás, o termo "revelação" quer dizer justamente isto "tirar o véu" ou "desvestir" ou "desnudar"). Diante de Deus fica patente ao ser humano o que ou quem é este ser. Daí São João dizer que “ò logos” é “???” (luz) e, como tal, mostra quem são as pessoas que dela se aproximam (cf., v.9 e 3.19-21). Quem se encontra com Nosso Senhor Jesus Cristo encontra-se com Deus e consigo mesmo, como Isaías que viu o Senhor e teve conhecimento de si mesmo (cf., Is. 6.1 e 5).

 

A verdade da Palavra de Deus, como por vezes pretendem alguns, não está nos seus "vocábulos" ou na sua "???????" (gramata = letra), diria Paulo (cf., 2ªCo. 6.3), nas suas formulações lingüísticas, mas na relação que possui com Deus. Ela é DE DEUS e, como tal o ser humano conhece a Deus e passa a conhecer-se, descobre a Deus e descobre a criação, entende mais sobre Deus e sobre a história humana, conhece a Deus e pode, assim, conhecer-se.

 

Por ser "de Deus", esta Palavra é uma ação criadora (e, assim, evento temporal). Sua força é vital e faz surgir do nada a realidade circundante, um novo céu e uma nova terra, uma nova criação, um novo ser humano, renascido “não da vontade da carne, nem da vontade dos homens, mas de Deus” (v.13). Por isso o autor da Carta aos Hebreus vai afirmar que Ela é "viva e eficaz" (4.12), ou seja, produz vida e o faz de modo eficaz. Por ser criadora a Palavra de Deus é livre, independente, realizando aquilo que o Seu emissor designou-a cumprir (cf., Is. 55.10-12). Ela emana de Deus, fonte de toda a vida e de todo o bem e, como tal, produz vida e todas as boas realidades do viver. A "verdade" ou a "sabedoria" ou o "conhecimento” que a Palavra de Deus transmite é ação poderosa capaz de gerar vida. Isso se mostra na ação de Nosso Senhor Jesus Cristo que, por onde passou, produziu vida para todos.

 

Em Gn. 1 vemos que o mundo foi criado do nada pela Palavra de Deus. Antes existia o "caos", assim, São João afirma que a nova ordem que Nosso Senhor trouxe é a superação da vida caótica pois, quando a Palavra de Deus entra em ação nesta realidade caótica Ela começa a realizar o que Deus determinou-a fazer. Assim ela passa a "ordenar" todas as coisas, colocando-as em seu devido lugar, dando sentido a cada uma das realidades criadas. A Palavra ordena o mundo e lhe dá sentido, e isso é bom. Para quem?

 

Para o ser humano que será colocado neste mundo ordenado e com sentido ao final da criação, visto que este pode habitar somente em um mundo que faça sentido; onde não há sentido a vida do ser humano torna-se impossível, insustentável, sem razão de ser. Deus "diz" (faz soar a Sua Palavra) e a realidade aparece: suscita vida e ordena a ausência de sentido. Faz da desordem uma nova ordem. A Palavra de Deus é a manifestação plena da Sua graça (v.14), de Seu amor (3.16), de Sua bondade, de Sua misericórdia. Mesmo quando na palavra profética ela assume um tom de julgamento, ela visa não a condenação, mas a salvação, chamando os seus interlocutores a que mudem de vida e tornem a ter um viver ordenado, com sentido, pleno de vida. Ao apontar para o juízo, seu intento é chamar o ser humano à salvação. Não é problema o fato dela ser, por vezes, uma dura Palavra, mas sim que ela torne-se rara ou torne-se silêncio (cf., 1 Sm. 1.3). Quando mais parecia ao povo de Deus que Ele havia migrado para a região do silêncio (assim era visto o chamado período inter-bíblico), a Palavra de Deus "se fez carne e habitou entre nós" (v.14).

 

Por determinação divina não ficou o mundo privado da Sua Palavra. Por ato supremo e soberano de Sua amorosa graça resolveu Ele assumir lugar ao lado do ser humano em seu caminho histórico, assumindo a história, fazendo a história, realizando na história humana a história de Seu amor. Esta Palavra, pois, que é graça, verdade, conhecimento, misericórdia, amor, sentido, revelação do rosto de Deus tem uma face humana, pode ser encontrada dentro da história e ser chamada por um nome, pois não é uma idéia, um vocábulo ou uma coisa, Ela é uma Pessoa: Jesus de Nazaré! Ele é o Verbo Eterno e Criador.

 

Nosso Senhor Jesus Cristo não foi, em primeiro lugar, pregador, embora tenha pregado. Não foi mestre de sabedoria, embora tenha ensinado com inconfundível sabedoria. Em tudo supera Ele os mestres, sábios e pregadores juntamente por que não versava "sobre" a Palavra, mas Ele mesmo era A Palavra. Quem lhe ouvisse as palavras deveria ter fé, não nelas, meramente, mas n'Ele principalmente e essencialmente. Seus ensinos não versam sobre doutrinas, ou sobre idéias, ou sobre conceitos, somente, mas sobre a Sua própria Pessoa. Por isso são eternas as suas palavras. Única e exclusivamente porque são SUAS. Este foi o problema com “oi Ioudaioi” e os gnósticos, segundo São João: medo, falta de fé e, assim, falta de amor. Pois em São João o contrário da fé não é a incredulidade mas o medo que impede de amar (cf., 1ª Jo. 1.4-21).

 

A Palavra de Deus tem carne e osso, tem história e tem rosto, tem sentimentos e pensamentos, tem coração e raciocínio, tem suor e tem lágrimas, tem dor e tem sangue. Em Jesus palavras e ações são inseparáveis: são palavras atuantes. Não é verborragia, mas manifestação de autoridade. Não é gramática, tinta e papel, mas ação poderosa de Deus que muda a realidade circundante dando visão aos cegos, ouvido aos surdos, agilidade aos coxos, sorriso aos desalentados, ânimo aos fracos, filhos à viúvas, pão aos famintos, purificação aos leprosos. Em Jesus Palavra e Sinal caminham juntos, apontam na mesma direção: a graça de Deus que veio ao mundo dar sentido novo ao viver. Por isso Jo. 1 liga-se à Gn. 1: o mistério da criação do mundo pela Palavra, não é uma "mágica" divina, mas é ação de uma Pessoa que "armou a sua tenda ao lado da nossa".

 

Este é o sentido do termo “?????????” (èskénosen, aoristo do verbo [??????] skenóô, uma transliteração do hebraico shekina que designa a presença de Deus no VT), “armar a tenda”, “tabernacular”. Durante a peregrinação pelo deserto em direção á Terra da promessa, deus, mantendo Sua palavra de estar no meio do povo, determinou a Moisés fazer uma tabernáculo (tenda), que seria a Sua “casa” no meio do arraial, lá Deus manifestaria a Sua shekiná, ou presença. Assim, Nosso Senhor é o nosso vizinho no caminho, Aquele que se estabeleceu ao nosso lado, na estrada, quando se caminhamos e, à noite, arma-se uma barraca para pernoitar ao nosso lado.

 

Ele não é um estranho, um desconhecido, alguém de Quem nada podemos saber, entender, compreender, ver. Ao contrário, Ele é Deus-conosco, Deus-entre-nós, Deus-como-um-de-nós. O Mistério Indecifrável tem um rosto humano e amigo. Não veio para julgar, mas para salvar (cf., 3.17). E não existe outra, nem melhor e nem maior definição para a palavra de Deus: ela é salvadora, na verdade ela é o Salvador. Salva porque é graça e verdade divinas. Salva porque manifesta as obras de Deus (cf., Jo. 8). Salva porque vê (cf., Jo. 9). Salva porque está em plena e perfeita comunhão com o Pai, pois se encontra “no seio do Pai” (v.18). A Sua humanidade é a shekina de Deus, pois Ele era verdadeiramente Deus por ter sido entre nós verdadeiramente Humano.

 

São João destaca muitíssimo esta relação entre Nosso Senhor Jesus Cristo e Deus, como o Pai. Em São João, Nosso Senhor refere-se a Deus 117 vezes como “Pai”, enquanto os sinóticos destacam ao todo somente 67 vezes este tratamento. Merece, por isso, destaque o termo “?????????????????????????” (os monogenoûs pará patrós = Unigênito do Pai, v. 14). Tem o sentido de ser o único, sem nenhum outro qualquer, ou exclusivo filho. Esta é a base da perfeita comunhão, a ponto de Nosso Senhor afirmar: “Eu e o Pai somos um”. Destarte, aqueles que foram gerados do pai (v. 14), ou seja, “os que O receberam” (v.12, note que aqui tem o sentido de “os que crêem no Seu nome”), devem ter esta mesma comunhão com Cristo e, assim, uns com os outros, sendo este o único modo de frutificarem (cf. Jo. 15). Por isso, não crer é o mesmo que não amar e, via de conseqüência, odiar.

 

A encarnação, fato central da história da salvação, é a manifestação da “graça e da verdade” divinas, sinal de Sua fidelidade e misericórdia. Deus não desmente as nossas trevas, nem as nossas obras precárias e malévolas, mas resolveu vir ao encontro do ser humano, não para julgar, mas para salvar, retirar das trevas, dar vida verdadeira. A encarnação de Nosso Senhor Jesus Cristo é a plena manifestação desta verdade graciosa: Deus está conosco para nos libertar.

 

 



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Última atualização (Qua, 11 de Janeiro de 2012 16:27)

 


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