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Home Artigos Clero Ordenação Feminina - O Rascunho de uma Posição Favorável - Rev. Marcus Throup

Ordenação Feminina - O Rascunho de uma Posição Favorável - Rev. Marcus Throup

Pensamento do Clero

 

Ordenação Feminina

O Rascunho de Uma Posição Favorável

Rev. Marcus O. Throup (¬)[1]

1). Introdução/demarcação

Aqueles que apoiam a ordenação feminina não formam um bloco monolítico. Identifiquemos pelo menos três grupos distintos que fazem uma defesa da ordenação feminina: (i) Os/as Liberais radicais; (ii) Os/as Evangelicais ‘abertos’; (iii) Os/as Evangelicais ‘conservadores’. Cada grupo possui a sua própria agenda e motivações próprias, as linhas de argumento utilizadas pelos diferentes grupos são diversas. Esta apresentação visa traçar alguns argumentos sobre a ótica da posição (iii).

 

2) O aspecto ‘negativo’ do argumento: lidando com textos-provas e batatas quentes

O preceito primário da hermenêutica bíblica se expressa por meio da seguinte frase: ‘Um texto fora do seu contexto vira pretexto’. No que se refere à questão da ordenação feminina, muitos intérpretes parecem abrir mão deste preceito, isolando essencialmente dois textos e utilizando-os como texto-provas para formar uma doutrina eclesiástica. Os textos mais citados como ‘proibições’ da ordenação feminina são (1) 1Coríntios 14.34-35; (2) 1Timóteo 2.11-13.

 

(a) 1Coríntios 14.34-35

Em primeiro lugar, a não ser que acusemos o apóstolo Paulo de entrar em autocontradição, temos de reconhecer que esta palavra não pode ser uma proibição absoluta da mulher falar na igreja. Ora, em 1Coríntios 11.5 o apóstolo dá orientações quanto à maneira em que a mulher deve orar e profetizar na igreja (ekklesia) o que pressupõe que é permitido que ela participe e fale na assembleia para a edificação da comunidade. A profecia, segundo 1Co 14.3 é para a ‘edificação, exortação e consolação’, tem também uma função didática já que 1Co 14.31 diz: ‘Porque todos podereis profetizar, um de cada vez, para que todos aprendam e sejam encorajados’.

Evidentemente, já que a restrição em 1Co 14.34-35 não é absoluta, se trata de uma resposta para algum problema específico ou pontual. Tudo indica que aqui (como no restante da epístola) o apóstolo aborda um problema ocasional: algumas mulheres estão falando de maneira indevida ou imprudente na igreja, fazendo perguntas (cf. verso 35) de modo inconveniente, provavelmente nas deliberações oficiais (e não no culto) da assembleia. Portanto, o apóstolo censura-as: ‘...não lhes é permitido falar (lalein)... para a mulher é vergonhoso falar (lalein) na igreja’, onde o verbo lalein tem a conotação de ‘falar sem base’ ou ‘falar precipitadamente’.

 

Conclusão: Em 1Co 14.34-35, há uma proibição pontual da mulher falar indevidamente na igreja, o apóstolo Paulo de nenhuma forma exclui a possibilidade da mulher participar dos atos de adoração da igreja como comprova 1Co 11.5, tampouco desqualifica a possibilidade da mulher assumir uma liderança pastoral na congregação: veremos, adiante, que algumas mulheres exerceram tal liderança.

 

(b) 1Timóteo 2.11-13

Frequentemente citado como texto-prova contra o ministério feminino, não há nada que possa comprovar que 1Timóteo 2.11-13 diz respeito ao exercício do pastorado. O contexto da epístola revela que o apóstolo fornece orientações sobre três esferas ou âmbitos: (i) O âmbito da sociedade na sua plenitude (1Ti 2.1-8); (ii) O âmbito da família/lar (1Ti 2.9-15) e (iii) O âmbito eclesiástico (1Ti 3.1-16). 

Em 1Timóteo 2.11-13 o apóstolo Paulo explica que existe uma ordem familiar; o marido é o cabeça da família e a sua mulher precisa se submeter a ele. Que a questão trata da configuração doméstica está evidente por três razões: (i) As palavras comumente traduzidas aqui ‘mulher/homem’ (gyne/andros) podem e devem ser traduzidas ‘esposa/marido’ cf. Mt 1.16; Mc 10.2; Ef 5.22 etc. (ii) A analogia utilizada pelo apóstolo diz respeito ao primeiro casal Adão e Eva; (iii) Há uma referência à geração de filhos (1Ti 2.15) o que confirma que o apóstolo tem a união conjugal em mente. Qualquer tentativa de transferir as orientações da configuração doméstica para a configuração eclesiástica ultrapassa a evidência textual. Em ponto de fato, a igreja primitiva conhece ‘pastoras’, pois Febe é ‘diaconisa’ conforme Ro 16.1, Junias tem o status de ‘apóstolo(a)’ (Ro 16.7), Priscila (junto com o marido Aquila) é professora (ensinou o caminho de Deus a nada menos que Apolo cf. At 18.26).

 

Conclusão: Não se pode provar que 1Ti 2.11-13 constitui uma proibição do ministério feminino. Tudo indica que este texto se relaciona à ordem doméstica e não à ordem eclesiástica.[2]

 

(3) O aspecto ‘positivo’ do argumento: a liderança e atuação pastoral de mulheres no Novo Testamento

Embora seja possível apontar para a liderança feminina no AT, através de personagens chaves como tipologia, nos limitaremos a uma consideração da liderança e atuação pastoral de mulheres na igreja primitiva. O mero fato que Jesus teve seguidoras e mulheres entre o seu grupo, já foi radical e indicativo do novo caminho que a igreja abriria para o sexo feminino. Em Atos 2.17 ss. Pedro cita Joel 2, e mostra que mulheres participavam dos eventos de pentecostes, no contexto, ‘a profecia’ que é contemplado é de natureza evangelística.

 

(a) Febe – Ro 16.1-2

Conforme Ro 16.1, Febe era ‘diaconisa’, a mesma palavra se aplica ao próprio Cristo em Ro 15.8, e a Paulo e Apolo em 1Co 3.5. Em outras palavras, ela era uma ministra do evangelho, e com moral (!) já que Paulo orienta aos romanos ‘...a ajudeis em qualquer coisa que necessitar’. O autor patrístico Teodoret confirma a impressão de que ela havia sido uma pregadora itinerante quando opina favoravelmente: “A fama de Febe era falada no mundo todo. Ela era conhecida não apenas entre os Gregos e Romanos, mas entre os bárbaros também”.

 

(b) Júnias – Ro 16.7

Seguindo Orígenes, alguns ainda argumentam que Júnias foi um homem, mas, a opinião do grande orador e pai patrístico, Crisóstomo, junto com Teofilácto, é que Júnias era uma mulher. Em nossa época, N.T. Wright, o preeminente perito neotestamentário, tem afirmado o mesmo. Ela é classificada pelo apóstolo como sendo ‘entre os apóstolos’.

 

(c) As filhas de Filipe – At 21.9

As filhas de Filipe que ‘profetizavam’. No século IV o historiador da igreja Eusébio nos informa que estas eram ‘grandes líderes’ na obra do Senhor.

 

(d) Evódia e Síntique – Fp 4.2-3

O apóstolo Paulo explica que estas mulheres ‘trabalharam comigo no evangelho’, e as coloca na categoria de ‘cooperadores’; na mesma categoria é o ministro Timóteo em 1Ts 3.2. No NT a palavra ‘cooperador’ só se usa em referência aos ajudantes na difundação do evangelho ou no ensino do mesmo (cf. Prisca (= Priscila) e Aquilo em Ro 16.3-4). Tentativas de ver esta ‘cooperação’ no evangelho em termos meramente de hospitalidade carecem de fundamento.

 

(e) Trifena, Trifosa e Pérside – Ro 16.12

De novo, estas mulheres ‘trabalham no Senhor’. Catherine Booth cita um certo doutor Clarke quanto a este versículo: “Muitos têm tentado, inutilmente, provar que estas mulheres não pregaram. Mas, que havia profetisas na igreja e não apenas profetas, nós vemos em 1Co 14.3, e quem profetizava, profetizava para a edificação, exortação e conforto dos demais, e nenhum pregador pode fazer mais do que isso! Pois, edificar, exortar e confortar são os principais objetivos do ministério do evangelho. Se as mulheres profetizaram assim, então elas pregaram”.

 

(f) A senhora eleita – 2Jo 1.1

Será ela a igreja, ou será esta uma interpretação patriarcal que não conseguiu aceitar que uma mulher governasse uma congregação?

 

Conclusão:

Os argumentos apresentados acima demonstram que há argumentos em favor da ordenação feminina, e que estes argumentos precisam ser levados a sério e pesados à luz das Sagradas Escrituras.

 



[1] O Rev. Marcus Throup aceitou representar o argumento bíblico em favor da Ordenação Feminina neste evento – mesmo tendo algumas reservas a respeito – pois, de experiências pessoais na Junta de Capelães, tem constatado que algumas postulantes e candidatas às Sagradas Ordens desconhecem os argumentos bíblicos que dizem respeito ao pastorado feminino, o que crer ser inadmissível. O autor espera que este roteiro possa ajudá-la a aprofundar os estudos sobre um tema que (elas) precisam dominar perante os setores evangélico e secular. Palestra ministrada na Semana Teológica do JUVEP, dia 27 de outubro de 2011, em João Pessoa (PB).

[2] Alguns talvez observem que quando o apóstolo trata dos governantes da igreja em 1Ti 3, ele fala sobre homens e não mulheres. Isto é verdade, mas, reflete apenas o Sitz im Leben da igreja primitiva, pois, a liderança pastoral era predominantemente (mas não exclusivamente) masculina.



¬ Rev. Marcus Oliver Throup; é Presbítero da Diocese do Recife; Secretário Diocesano de Relações Internacionais; professor no SAT-PB; Coadjutor da Concatedral Anglicana da Ressurreição, no Arcediagado Paraíba/Rio Grande Norte, Região Eclesiástica 1.

 

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Última atualização (Dom, 30 de Outubro de 2011 00:35)

 


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