Ressurreição e Ressuscitamento - Rev. Maurício Amazonas
Pensamento do Clero

Ressurreição e Ressuscitamento
“Creio na ressurreição do corpo” – Credo Apostólico
Rev. Maurício Amazonas, ose (¬)
Certa feita, eu me vi explicando, para uma turma de Teologia de Novo Testamento, a diferença fundamental entre a Ressurreição de Jesus e outras ressurreições, como a de Lázaro (Jo 11), a da filha de Jairo (Mt 5.18-25), e a do filho da viúva de Naim (Lc 7.11-15), realizadas por Nosso Senhor Jesus Cristo; bem como das ressurreições que foram realizadas pelos profetas Elias (1Rs 17.17-22) e Eliseu (2Rs 4.19.36); ou ainda sobre a ressurreição de Tabita e de Êutico, realizadas pelos Apóstolos Pedro e Paulo, respectivamente (At 9.36-42; 20.9-12). Apenas para que se tenha uma ideia, nenhum dos corpos ressuscitados tinha morrido há mais de quatro dias. Com exceção de Lázaro, todos ainda estavam insepultos. Estavam em casa, ou, no máximo, a caminho do sepultamento. Estes milagres seriam mais bem compreendidos hoje como ressuscitamento, termo corrente na medicina.
Antes de aprofundar o tema, devemos destacar que a doutrina da ressurreição (como nós a entendemos) não é assunto corrente no Antigo Testamento. Somente aparece claramente nos escritos do profeta Daniel. “Muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha e horror eterno” (Dn 12.2 – ARA). Talvez seja necessário dizer que, no Cânon judaico, Daniel não esteja entre os profetas, mas entre os escritos. Um texto contemporâneo ao de Daniel é o grande poema de Jó. Temos neste livro uma alusão à ressurreição, quando diz: “Porque eu sei que o meu Redentor vive, e que por fim se levantará sobre a terra. Depois, revestido este meu corpo da minha pele, em minha carne eu verei a Deus. Vê-lo-ei por mim mesmo, os meus olhos o verão, e não outros” (Jó 19.25-27 – ARA).
Para o judaísmo antigo, cessavam todas as esperanças com o ato do sepultamento. Um dos salmos mais tristes constata isso: “Mostrarás Tuas maravilhas aos mortos, ou os mortos se levantarão e Te louvarão? Será anunciada a Tua benignidade na sepultura?” (Sl 88.10-11 – ARC). A melhor perspectiva sobre a vida depois da morte está no Eclesiastes: “E o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu” (Ec 12.7 – ARC). Contudo, uma leitura atenta apontará que todas estas referências estão longe dos profetas, constando apenas nos escritos poéticos e sapienciais.
Nos tempos de Jesus, graças à escola farisaica, a doutrina da ressurreição, embora não aceita pelos saduceus, era tema palatável entre os judeus, uma vez que os saduceus eram uma minoria aristocrata e latifundiária, ao passo que o povo estava mais ligado ao pensamento dos fariseus, pois estes inventaram a escola mais importante para disseminação do judaísmo, a sinagoga. Lembremo-nos que a grande crítica de Jesus não era à doutrina bíblica, mas aos preceitos humanos e práticas errôneas dos fariseus.
Dentro do ensinamento de Jesus não encontramos – pelo menos eu nunca vi – lugar para os assuntos metafísicos. Ele fala de coisas simples e dentro da linguagem concreta do povo. Ele cita exemplos e parábolas usando recursos visuais do cotidiano, tais como pão, água, peixe, pescador, arado, semente, lavrador, ovelha, pastor, lírios, pássaros, pedra, torre, casa, etc. No momento em que Ele quis ensinar sobre a ressurreição, dizendo “Eu sou a ressurreição e a vida”, Ele praticou o ressuscitamento de Lázaro (Jo 11).
Voltando ao problema que nos propomos, devemos afirmar que a ressurreição de Lázaro foi apenas provisória. Foi um “voltar às funções vitais”, temporariamente, para depois tornar a morrer. Se não fosse assim, Lázaro seria hoje o maior vendedor de CD e DVD do mundo, e sua agenda seria a mais concorrida dos pregadores. Seria o maior profissional de testemunho: “Venham todos ver o homem que foi ressuscitado por Jesus há 2 mil anos!”. Mas Lázaro está “mortinho da silva”, aguardando o “Dia glorioso do Senhor”. Esta é também a condição da filha de Jairo e do filho da viúva de Naim...
E qual é o problema? Ora, a ressurreição de Jesus foi definitiva. Ele recebeu um corpo glorificado, que pode comer peixe e mel (Lc 24.42-43), mas é capaz de transpassar paredes sem abrir portas (Jo 20.19). Que pode “desaparecer”, como testemunharam os discípulos de Emaús (Lc 24.31), ou ser elevado ao céu (Lc 24.51). No entanto, é um corpo de carne e osso (Lc 24.39).
Não resta dúvida de que estamos diante de um grande “mistério” (1Co 15.51), quando tratamos da Ressurreição de Cristo e da futura ressurreição dos Seus remidos. Se fosse possível comparar, diríamos que as várias ressurreições a que fizemos referências servem apenas como pequenos aperitivos do que será a verdadeira e definitiva ressurreição. Diante desta, aquelas seriam mais bem compreendidas como ressuscitamentos. Grande é o mistério que Deus tem preparado para os que aguardam o Dia de Sua Vinda.
¬ Rev. Maurício Amazonas, ose é Presbítero na Diocese do Recife; Vigário Geral Diocesano, Pároco da Paróquia Anglicana Jardim das Oliveiras, no Arcediagado Centro, em Recife-PE.
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Última atualização (Qui, 13 de Janeiro de 2011 09:10)



















