Santo Estevão: Visão e Profundidade na Missão - Rev. Maurício Amazonas
Pensamento do Clero

Santo Estevão: Visão e Profundidade na Missão
(Atos 6-7)
Rev. Maurício Amazonas, ose (¬)
UM PROBLEMA – É sempre oportuno lembrar que a instituição dos Sete Diáconos se deu mediante uma crítica dos judeus helenistas contra os judeus palestinos (ambos convertidos à doutrina de Cristo). As viúvas helenistas não recebiam apoio e socorro da Igreja (At 6.1). Ao ouvir esta queixa, o Apóstolo São Pedro não tergiversa: “Nós (os Doze) cuidaremos da Palavra e da oração, ao passo que vós (os Sete) cuidareis das mesas e do serviço às pessoas necessitadas” (At 6.2-3). Embora não seja mencionada dessa forma por São Lucas – que segundo a Tradição, seria o autor do livro dos Atos dos Apóstolos – a escolha dos Sete passou à História da Igreja como sendo a eleição dos primeiros Diáconos. Pelo menos os textos que pesquisamos não nos dão margem para afirmar se nesta ocasião a Igreja pensava nas distinções que fazemos hoje acerca da Ordem e do ofício diaconais. Talvez fosse melhor entender o desenvolver desses conceitos com a própria desenvoltura da História da Igreja como Corpo vivo de Cristo e sua necessidade de organização como Instituição eclesiástica.
UMA SOLUÇÃO – Santo Estevão foi escolhido para integrar o grupo dos Sete porque era um “homem de boa reputação, cheio do Espírito Santo e de sabedoria” (At 6.3). Ao contrário do que pretendem fazer do Diaconato atualmente, Estevão era um exímio pregador da Palavra e profundo conhecedor da história do seu povo. O conhecimento da História parece que se torna pré-requisito para qualquer pregador ou pregadora: como preparar um bom sermão quando não se tem conhecimento da história da Revelação de Deus ao seu povo? Desta sorte, como ter consciência dessa história e não se tornar pregador ou pregadora das Boas Novas? A pregação requer conhecimento que redunde em anúncio e proclamação. Infelizmente o ofício da pregação é visto, por algumas pessoas hoje em dia, como algo que se deve exigir apenas do Presbítero e Bispo que, segundo a instrução do Apóstolo São Paulo, deveria ser “apto para ensinar” (1Tm 3.2; 4.4; 6.2). Mesmo tendo sido escolhidos para servirem às mesas, Estevão e Filipe não se furtam ao exercício da pregação, tal qual faziam os Doze Apóstolos. Dos Sete, somente estes dois se destacaram. Este Filipe, que era pai de quatro moças profetizas (At 21.9), será cognominado de Filipe Evangelista (At 21.8), até para o diferenciar de São Filipe, o Apóstolo. Encontramos Filipe no exercício da evangelização, sendo levado pelo Espírito Santo para pregar em diversos lugares (At 8.6, 26 e 39-40). É de Filipe a célebre pergunta que incomoda leitores e leitoras em pesquisas hermenêuticas de todos os tempos: “Entendes o que lês?” (At 8. 30).
AS CREDENCIAIS DE ESTEVÃO – Vamos perceber que as três características necessárias para a eleição do grupo dos Sete estão presentes na vida e no discurso de Santo Estevão até à hora do seu martírio. A “boa reputação” foi o primeiro reconhecimento para sua tomada de consciência da vocação. O “cheio de sabedoria” será aqui, de modo muito limitado, equiparada ao conhecimento que ele detinha sobre a história de Israel e de Jesus de Nazaré, o Cristo. O “cheio do Espírito Santo” será entendido como a sua visão da glória do Cristo ressurreto.
SEU DISCURSO SOBRE O ANTIGO TESTAMENTO – São Lucas Evangelista é reconhecido como sendo o narrador dos Atos dos Apóstolos. Inicialmente, o Evangelho conforme São Lucas e livro de Atos eram um só livro em dois volumes (Lc 1.1-4; At 1.1). O narrador faz questão de frisar que Santo Estevão era grandiloquente na oratória e seus adversários não podiam resistir à sabedoria e ao Espírito com que ele falava (At 6.9-10). Movidos de inveja, os inimigos de Santo Estevão subornam algumas pessoas e apresentaram falsas testemunhas para afirmar que Estevão blasfemava contra o Templo e a Lei (At 6.11-15). Diante do Sinédrio (tribunal religioso dos judeus) Estevão precisava enfrentar o problema de sua acusação. Seu discurso está centrado em dois temas, conforme o comentarista Howard Marshall. Primeiro, mostrar que Deus sempre levantou homens e mulheres para libertar o seu povo (At 7.2-16). Segundo, provar que os judeus sempre se desviaram para o caminho da idolatria (At 7.39-43). Estes dois temas se intercalam no discurso. Ainda conforme o Marshall, Estevão vai fazer isso visando três propósitos. 1) É uma defesa de Moisés e da Lei. A crítica não é feita ao Templo, mas ao tipo de culto que nele se oferece. 2) É um ataque ao povo judeu que trocou a Lei de Moisés pelos preceitos dos anciãos e recusou ao Messias a quem Moisés chamou de “um profeta semelhante a mim” (At 7.37; Dt 18.15-18). Para alguns, um ataque feito aos costumes ou às leis da tradição oral era o mesmo que blasfemar contra toda a Lei de Moisés. Como resultado dessa atitude dos judeus, 3) o Evangelho estará agora sob responsabilidade de propagação pelos gentios, fora do Templo e fora da cidade de Jerusalém.
Em verdade, toda a argumentação do discurso de Santo Estevão visa construir um resumo da História da Salvação. Começa com o chamamento de Abraão, passando pelos principais patriarcas, profetas e monarcas de Israel até chegar em Jesus Cristo. Daí passa a todas as nações, por meio dos gentios. Este é o resumo da História da Salvação. Também queria mostrar que continuava na tradição dos patriarcas Abraão, Isaque, Jacó, José, Moisés, Davi e Salomão. Não praticava nenhuma novidade religiosa. Servia ao Deus dos antigos. Sua intenção em citar os patriarcas era construir uma linhagem que culminasse no evento da Encarnação de Deus em Jesus de Nazaré. Tinha preocupação de falar da revelação e manifestação de Deus aos antigos, aos quais ele chama de nossos pais. Possuía conhecimento do passado do seu povo e tinha um profundo sentimento de pertença a esse mesmo povo quando diz: “esta, pois, é a terra que Deus graciosamente deu aos nossos pais” (At 7.45). Contudo, ele também sabe se excluir desse povo quando o acusa de possuir um comportamento violento e criminoso: “vossos pais mataram os profetas que anunciavam o Justo. Vós mesmos matastes o Justo” (At 7.51-53).
SEU CONHECIMENTO SOBRE A HISTÓRIA – Muito importantes são as afirmações acerca de Moisés. Foi Santo Estevão quem dividiu a vida de Moisés em três períodos de quarenta anos. É provável que seguisse algum modelo estabelecido por Fílon de Alexandria, o intelectual judeu mais influente daqueles dias, numa tentativa de harmonização dos princípios helênicos aos judaicos. Santo Estevão faz uma mini biografia de Moisés em três tempos: quarenta anos no Egito (At 7.23), quarenta anos no Deserto de Midiã (At 7.29-30) e quarenta anos no deserto da peregrinação entre o Mar Vermelho e o Rio Jordão (At 7.36). De Santo Estevão é a afirmação de Moisés fora “educado em toda a ciência dos egípcios” (At 7.22a). Considere-se que Moisés viveu no século XV a.C. Nesta época o Egito era o centro mais avançado no conhecimento da Astronomia, da Geometria, da Topografia, da Engenharia Civil e da Arquitetura. Lembremos dos plantios, colheitas e constantes inundações do Rio Nilo. Era o rio que justificava os estudos da Topografia, Astronomia e Geometria. Pelo conhecimento científico podia-se conviver melhor com o rio e retirar dele o sustento para manter as riquezas do Egito. Se pensarmos nas construções das Pirâmides, podemos tirar conclusões acerca da importância e do conhecimento da Engenharia, da Arquitetura e, novamente, da Geometria. Moisés, segundo Santo Estevão, era homem poderoso em palavras e obras (At 7.22b). Não devemos opor esta informação àquela de que Moisés era “homem duro de língua” ou sem muito traquejo com a palavra (Êx 4.10), afinal esta é uma opinião autodepreciativa de Moisés para se livrar do encargo que Deus queria lhe entregar! (HOWARD MARSHALL). Pois bem. Foi neste grande centro cultural que Deus formou o libertador e legislador do seu povo. Mas Deus não preparou Moisés apenas no grande centro da cultura egípcia. Levou-o ao Deserto de Midiã para que lá se revelasse a ele num arbusto flamejante. Às vezes é necessário se distanciar da academia e da civilização para se encontrar com Deus no deserto, em meio ao contato com plantas, montanhas e animais. Mas isso será determinado por Deus e não por nós. Ele é quem conduz ao deserto como o fez a Elias (1Rs 19.11-16) e a Jesus (Mt 4.1).
O ROSTO DE ESTEVÃO E A DOUTRINA DOS ANJOS – O seu rosto resplandecia “como o rosto de um anjo” (At 6.15). A expressão “rosto resplandecente” foi usada para se referir a Moisés quando ele desceu do Monte Sinai com as Novas Tábuas da Lei (Êx 34. 29-35; 2Co 3.7-18). Com o mesmo brilho ficou o rosto de Cristo quando da Transfiguração no monte (Mt 17.2 // Lc 9.29).
Com relação à compreensão da Igreja, na Era Apostólica, no que diz respeito aos anjos, é bom lembrar que eles acreditavam na existência do Anjo da Guarda. Foi o que aconteceu em Atos 12 quando Rode recebeu o Apóstolo Pedro num culto de oração em que se estava pedindo a Deus pela libertação do referido Apóstolo. Reconhecendo-lhe a voz, a menina ficou tão impactada que nem conseguiu abrir a porta, deixando-o do lado de fora da casa. Atônita, avisou aos outros apóstolos: “Pedro está lá fora. Foi ele quem bateu à porta”, mas eles responderam: “Não pode ser Pedro: é o Anjo dele!”. Importante notar que São Lucas diz que foi o Anjo do Senhor quem chegou e falou para Pedro levantar-se (v.7). Contudo Pedro pensava que estava tendo uma visão (v.9). Ao final reconheceu que Deus havia enviado o Anjo para libertá-lo (v.11). Esta crença da Igreja Apostólica estava de acordo com os ensinos do antigo judaísmo que advogava a presença de anjos no momento da entrega da Lei, no Monte Sinai (Dt 33.2; Gl 3.19; Hb 2.2) e que também havia anjos para ajudar e socorrer servos de Deus que estivessem incorrendo em qualquer risco ou perigo (Sl 34.7 e 91.11).
Parece que a tradição evangélica brasileira, mais uma vez, querendo ser diferente de tudo que faça parte do arcabouço doutrinário católico-romano, desprezou essa doutrina, desprezando-a como se fosse herança do misticismo pagão. Mas é preciso recuperar a nossa Tradição cristã o quanto antes!
A VIOLAÇÃO DOS DIREITOS CIVIS – O assassinato de Santo Estevão foi uma franca violação da Lei e do Direito Romano de então. É sabido que o Sinédrio, como Tribunal Religioso dos judeus, não tinha poderes para executar a pena de morte. Poderia julgar e até condenar, mas a execução de qualquer criminoso era uma decisão do poder político e jurídico de Roma (Jo 18.31). Contudo, Estevão foi levado para fora da cidade e apedrejado até à morte. Aqui se completa a sua visão do Cristo de Deus a quem ele chamou de “o Filho do Homem”. E Jesus estava “de pé à direita de Deus”. Estevão repete as palavras de Jesus na cruz do Calvário: “Senhor Jesus, recebe o meu espírito!”. E acrescenta: “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem” (At 8. 59-60). A diferença consiste em que Jesus orou ao Pai, ao passo que Estevão dirige sua oração a Cristo Jesus!
CONSIDERAÇÕES CONCLUSIVAS – Deus se revelou a Abraão com palavras e demonstrações da Criação (Gn 12.1-7), e também por meio de visões (Gn 15.1). Deus se revelou a José através de sonhos e visões (Gn 37.5-10). Deus se revelou a Moisés no meio da sarça ardente no Monte Horebe, por meio do fogo (Êx 3.2-6) e também na entrega das Tábuas da Lei, no Monte Sinai, por meio de relâmpagos e trovões (Êx 19.16). Mas Deus se revelou à humanidade em Cristo, encarnando-se como ser humano, fazendo-se homem e habitando em meio a homens, mulheres e crianças (Tt 2.11; Hb 1.1). O Apóstolo São Paulo diz que “foi do agrado do Pai que toda a plenitude nEle habitasse” (Cl 1.19), “pois nEle habita corporalmente toda a plenitude da Divindade” (Cl 2.9). Este é o Cristo que agora se revelara a Estevão como “o Filho do Homem”, mesmo depois de glorificado. Ele também fez com que o rosto de Estevão se assemelhasse ao rosto de um anjo. Posteriormente, o mesmo Cristo glorificado se revelaria a Saulo de Tarso, na Estrada de Damasco (At 9).
Vamos concluir dizendo que o presente é uma pequena ponte que se constrói entre o longo e vasto passado e o sonho esperançador do futuro utópico: almejado, mas ainda não realizado. O homem ou mulher de Deus deve ser uma pessoa comprometida com o presente, consciente de sua vocação, conhecedora da história e passado do povo de Deus, e preocupada em plantar, no coração das pessoas, as sementes grávidas do futuro esperançoso. Santo Estevão tinha os pés no chão (conhecimento da História), as mãos na massa (consciência da vocação) e a cabeça na glória (esperança e visão futura de Cristo, o Rei). História, vocação e utopia: três elementos indissolúveis para nos manter em vida e atividade. Sem eles, morreremos. É preferível morrer por eles a ter que viver sem eles.
¬ Rev. Maurício Amazonas, ose é Presbítero na Diocese do Recife; Vigário Geral Diocesano, Pároco da Paróquia Anglicana Jardim das Oliveiras, no Arcediagado Centro, em Recife-PE. Sermão proferido por ocasião do Primeiro Ano de Ordenação do Rev. Daniel Barbosa, ose, na noite de 13 de agosto de 2005. Paróquia Anglicana da Redenção, em Olinda-PE.
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