Pastor e Candidato? - Ven. Côn. Rev. Luiz Souza de França
Pensamento do Clero

Pastor e Candidato?
Ven. Côn. Arc. Rev. Luiz Souza de França (¬)
A cada novo período eleitoral, o fenômeno se repete: inúmeros pastores se lançam candidatos aos mais diversos cargos eletivos neste país. Será saudável para a Igreja cristã essa prática? Temo que não. Na verdade, chega a ser desastroso. A Bíblia deixa muito claro que o Espírito Santo concede dons ou carismas para que cada componente da Igreja possa exercer sua função nela. Assim Ele elege pessoas para serem apóstolos, profetas, evangelistas, mestres e... pastores. E diz a razão disso: é para que eles possam aperfeiçoar os membros para o desempenho do Seu serviço.
Mais do que qualquer deles, o pastor tem um chamado especial para estar junto ao rebanho todo tempo e o tempo todo, por exemplo, alimentando-o. Ele bebe na fonte do mestre e traz o alimento fresquinho, saboroso e substancial para que cresçam em estatura e graça diante do Senhor. Isso sem falar nas mais inúmeras atribuições que lhe são específicas (como consolar, animar, advertir...) as quais consomem seu tempo de tal maneira que vinte e quatro horas no dia são insuficientes para seu cabal desempenho.
E aí cabe uma pergunta pertinente: então a Igreja deve ficar fora do processo político-eleitoral? Não, absolutamente. Mas quem deve envolver-se nele e de corpo e alma, são os leigos. Creio que o mesmo Espírito que chama alguns para cuidar especificamente da Igreja, elege outros para cuidar do povo, mesmo que estejam fora dela.
O pastor que deixa a sua igreja para exercer um cargo eletivo qualquer é desobediente ao chamado de Jesus para sua vida e trai a confiança daqueles que lhe foram entregues pelo Senhor para serem cuidados. Aproveita-se indevidamente da popularidade adquirida no desempenho do sagrado para alavancar sua eleição. E, como complemento complicador desse quadro lamentável, ao filiar-se a uma corrente ideológica político-partidária divide seus fiéis e passa a ser objeto de amargas disputas intestinas que mais divisões e sofrimentos inúteis causam ao rebanho.
Em tempos recentes a igreja católica vivenciou esse drama. Foi necessária uma intervenção partida do próprio Vaticano para colocar ordem num processo que ameaçava tornar-se anárquico. Mas aí o prejuízo já estava causado e ainda hoje raízes de amargura e ressentimentos mal contidos são o rescaldo do fato de sacerdotes terem deixado seu dever de cuidar dos fiéis para ceder à tentação da glória e poder humanos. Parece que a igreja evangélica vai ter que viver semelhante calvário para que, enfim, seus pastores entendam que Jesus definitivamente os chamou para negaram-se a si mesmos, dia a dia tomarem a sua cruz e seguirem-no sem reservas de sacrifício, inclusive da própria vida.
¬ Rev. Luiz Souza de França é Presbítero, Cônego e Venerável Arcediago na Diocese do Recife; Ministro Encarregado da Missão Anglicana do Consolador, em Conde-PB; é Arcediago para a região PB/RN.
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