Brasil, Meu Brasil Brasileiro! - Rev. Jorge Torres
Pensamento do Clero

Brasil, Meu Brasil Brasileiro!
Rev. Jorge Francisco Torres (¬)
Estamos inseridos numa sociedade que está diante de uma “crise de sensibilidade”, isto porque, nada mais nos causa espanto. Também por consequência de estarmos convivendo com inúmeros casos de violências quase que diariamente, dos mais escabrosos possíveis, contra a vida humana em especial que há muito tempo perdeu o seu valor. A repercussão desses casos em sua grande maioria passa nas telas de TV com coberturas cinematográficas, como se fossem “novelas”, assistidas por milhões de telespectadores, uma imensa massa manipulada, agora na versão confortável da era da televisão digital.
Sempre que estamos diante de mais um desses escabrosos casos que revela a sombria e tenebrosa ação humana, em que é comentado nos “botequins da vida” e em todo lugar, buscamos atribuir o peso da responsabilidade dos fatos a alguém, ou instituição, generalizando a conduta e o grau de caráter de todos os membros pertencentes a instituição eleita para ser o “Judas Traidor”.
Quando os fatos não estão diretamente ligados a nós, ou seja, quando não temos nada em comum com a vítima principalmente (seja parentesco, amizade, etc.), temos a tendência em eleger alguém como “bode expiatório” e, infelizmente, na grande maioria das vezes a eleita é a Polícia, seja ela enquanto instituição, seja ela por meio de algum de seus agentes – que diferentemente do que grande parte das pessoas pensam, influenciadas por outras pessoas más e tendenciosas propagam ódio e antipatia ao Policial – são seres humanos que têm seus defeitos, seus méritos, suas falhas, seus acertos, seus problemas, seus conflitos, como qualquer um, em qualquer seguimento da vida.
Quando um médico comete um erro, foi o médico quem errou. Não foi o Conselho Regional/Nacional/Municipal de Medicina. Porém, o mesmo julgamento não vale em nossa sociedade para a Polícia, pois quando um de seus agentes comete um deslize, seja o menor que for, o que se ouve em todas as esferas de nossa sociedade é coisas do tipo: “Tá vendo só, pulicia é tudo ladrão! Não presta!”.
O que não fazem é esclarecer à população, ou seja, informá-la de que um Policial é mal remunerado, mal treinado, não tem assistência psicológica, nem emocional, nem espiritual, que tem família por trás de si, que passa necessidade, paga aluguel, etc., que tem uma carga horária que nenhuma outra categoria dispõe, que trabalha em grande parte em desvantagem com a criminalidade...
Também não se esforçam um mínimo sequer para mostrar para a população que a Polícia Brasileira, mesmo com tantos fatores contrários ao desempenho de suas funções constitucionais e, contrariando a expectativa do próprio Estado, consegue obter índices fantásticos como: em números de prisões; em esclarecimento de delitos; em elucidações de casos; em realização de verdadeiros atos heróicos, etc. Pouco ou quase nada se enfatiza o lado positivo da Polícia. Em outras sociedades o Policial é respeitado, enquanto que aqui...
Também não se esforçam para mostrar ao cidadão comum, como funciona a Justiça no Brasil, seus códigos ultrapassados, suas leis com brechas enormes, a própria burocracia do Estado, etc. Não informam à população que nossa legislação é falha, arcaica, medíocre e que sempre irá beneficiar o infrator, principalmente se este tiver uma valorosa conta bancária...
O Sistema Educacional Brasileiro nunca se preocupou em agregar em sua grade curricular disciplinas de direito, desde o Ensino Básico (Fundamental e Médio), para que formemos cidadãos de bem, conhecedores de seus direitos e também dos seus deveres...
Não esclarecem à população que hoje o que está na moda é o Ministério Público (Promotor Público e não Promotor de Justiça, porque nem sempre ele age em favor da Justiça), ou seja, a Polícia faz todo o serviço, esclarece os fatos, porém, quem toma as honras agora é o Promotor Público, que tenta, a todo custo, passando por cima do que define a Constituição sobre suas atribuições, também exercer o papel constitucional que é de exclusividade da Polícia Judiciária, ou seja, a investigação. É claro, que o papel do Ministério Público é de suma importância no contexto da aplicação da Justiça, afinal é ele o que chamamos de o “pai da denúncia”, mas, o que se vê hoje, são verdadeiras vedetes do Ministério Público tomando conta de investigações e sendo as estrelas de TV.
Não informam que o nosso Judiciário (magistrados) também tem seus problemas, seja de ordem administrativa, como de ordem logística, acúmulo de processos e por aí vai.
Não se preocupam em esclarecer para a população que estamos cercados de advogados mal intencionados, que agem nas falhas da lei para “inocentar” criminosos confessos, que burlam a legislação em favor de seus clientes, sem ética nenhuma e por aí vai.
O que deveríamos trazer para uma reflexão mais ampla e mais produtiva seria: o que e quais os motivos que levaram a sociedade brasileira estar vivendo o atual estágio de sua caminhada? Porque tantos crimes, tanta violência, tanta crueldade, tanto ódio e tanto rancor?
Creio firmemente que todos nós temos uma grande parcela de culpa, a começar pela família, quando os pais passaram a terceirizar a educação dos filhos, priorizando seus interesses econômicos.
Creio que a Igreja também tem grande parcela de culpa, quando ela passou a não mais mostrar para as pessoas o que é pecado, o que é certo e o que é errado e passou a dar ênfase somente no ter mais e cada vez mais.
Creio que o Estado, gestor das Polícias é um dos grandes culpados, pois não dão a importância que deveria dar à questão da Segurança Pública. Não valorizam o seu Policial, não investem no ser humano, não há treinamento, não há acompanhamento psicológico; vemos hoje, um grande número de policiais endividados, viciados em álcool e se acabando como ser humano em jornadas desumanas agregadas “aos bicos” para a sua sobrevivência. Quanto aos maus policiais, estes têm que ser banidos da instituição.
Creio que a camada política tem uma grande parcela de culpa, pois não tem coragem de mudar uma legislação que está desatualizada, que precisa urgentemente ser reformada.
A imprensa tem grande parcela de culpa, quando busca sensacionalizar a notícia, quando faz dos fatos uma verdadeira exibição em busca de audiência, não respeitando as partes, nem quem está trabalhando, quando formam opiniões maléficas e agem por puro interesse.
Essas questões teríamos que trazer para nossas discussões, em nossos círculos e não ficarmos atados somente no que será mostrado no próximo capítulo da novela do noticiário das televisões brasileiras.
¬ Rev. Jorge Francisco Torres é Diácono na Diocese do Recife; Ministro Encarregado do Ponto Missionário Anglicano Deus Conduz, em São José do Rio Preto (SP), integrado ao Arcediagado Sul/Sudeste.
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