Reflexões do Berço - Rev. Marcus Throup

Reflexões do Berço
Ponderação Sobre Recente Viagem à Inglaterra
Rev. Marcus O. Throup¬
Acabo de retornar ao Brasil após quase um mês de atividades na Inglaterra - o meu berço e berço do nosso Anglicanismo. É sempre estranho estar de volta em solo britânico, Deus fez com que eu me apaixonasse pelo Brasil e por uma brasileira, e há dez anos, a Inglaterra deixou de ser o meu “lar”. Nas longas viagens pelo país (visitei 7 igrejas, pregando, celebrando, orando, conversando) cai a ficha que não penso mais como um inglês: o sinal amarelo não significa mais “parar” significa “acelerar”, minha cabeça está verde-amarela...
Eu mudei e inquestionavelmente a Inglaterra mudou. Cresci num país cujo sistema de valores era (ainda) predominantemente cristão, e cuja população era predominantemente inglesa e branca. Hoje a nação é menos inglesa e menos branca: por um lado um enorme porcentual de aposentados ingleses tem migrado para a Espanha, Portugal e a França para aproveitar o sol e o custo de vida mais baixo; por outro, ondas de imigrantes entram no país (além dos asiáticos e africanos oriundos do velho império, há as novas populações flutuantes: algumas estimativas falam em torno de 6 milhões – só de poloneses!) – na atualidade somos mais coloridos, falamos centenas de idiomas, adoramos a diversos deuses, a Inglaterra é outro país...
Hoje, como Philip Jenkins já revelou, o Reino Unido pode ser considerado como paradigma da descristianização que se vê na Europa Ocidental. Por outro lado, a secularização toma proporção paradigmática – a última coisa que o fracassado primeiro ministro Gordon Brown tentou fazer antes de cair fora foi banir os bispos Anglicanos da Câmara dos Lordes – a sua tentativa falhou, mas os bispos-lordes sabem que os seus dias estão contados numa nação que não tolera mais a religião institucional sobre a qual (caso esqueçamos) foi construída.
E os cristãos na Inglaterra, “será que a coisa está tão complicada assim?”. (É o que muita gente da DR me pergunta) – e a resposta? Sim e não. É claro que é triste ver igrejas Anglicanas fechando as portas e prédios sendo vendidos na tentativa de tapar o buraco negro na Previdência da Igreja da Inglaterra. Porém, existe um remanescente firme e forte, guerreiros de oração, comprometidos com o Reino de Deus e vivendo para Jesus Cristo. Uma senhora de idade me cumprimenta após o culto dominical em que preguei: “Marcus, lembro de você quando você foi ao Brasil no início, quando você casou, e agora te vejo como pai de família – sempre tenho orado por você” – é apenas um exemplo do carinho e amor cristão de muitos. As igrejas comprometidas com a verdade do evangelho (tanto as anglicanas como as demais) estão crescendo. Novas expressões de Igreja estão surgindo. Há iniciativas que buscam cuidar das populações de imigrantes muitas vezes marginalizadas e até perseguidas pela sociedade que em certas regiões continua intolerante e racista, apesar da ubiqua retórica do “politicamente correto”.
Umas ponderações da missão transcultural da DR: me alegro ao ouvir Diego Campos – um jovem que cresceu na Paróquia Anglicana Jardim das Oliveiras – me contar as suas novidades. Atualmente, Diego chefia um projeto da Igreja Metodista trabalhando com crianças em risco e jovens num dos bairros mais pobres e perigosos de Newcastle: pelo amor ao evangelho Diego trocou o Nordeste do Brasil pelo nordeste da Inglaterra, que Deus o abençoe... Me alegro novamente ao ouvir o meu cunhado (casado com minha irmã) da antiga Catedral em Espinheiro, me mostrar o progresso no seu trabalho como pastor de jovens em Southwell. Luizinho é amado e respeitado pelo povo e o clero, e tem transformado a vida da juventude da região com seus incansáveis esforços em prol do Reino de Deus. Tomara que a minha contribuição na terra deles corresponda de alguma forma àquilo que eles hoje fazem na terra que era minha...
De volta ao Brasil, pé-no-chão tropical, entendo que me encontro fisicamente exausto, mas espiritualmente renovado. Eis um outro berço, o da minha filha Rebekah que me espera no aeroporto de Recife com a mãe! Agora não posso me contentar em ser apenas sacerdote, preciso aprender a ser sacerdote do lar: o que é que Deus fará nos próximos dez anos? Não sei, mas quero ver.
¬ Rev. Marcus Oliver Throup; é Presbítero da Diocese do Recife; Secretário Diocesano de Relações Internacionais; professor no SAT-PB; membro da Equipe Pastoral da Concatedral Anglicana da Ressurreição, no Arcediagado Paraíba.
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Última atualização (Qua, 30 de Junho de 2010 09:50)
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