Biografia Sem Graça - Rev. Mauricio Amazonas
Pensamento do Clero
Biografia Sem Graça
Rev. Maurício Amazonas, OSE (¬)
Quando lá pelos meus 16 anos eu comecei a ler as biografias dos chamados heróis da fé, percebi, com muito desgosto e angústia, a minha grande inferioridade diante das fantásticas proezas cometidas ou alcançadas por alguns pastores e missionários. Eram pessoas que tinham o poder de Deus ao seu dispor. Eram retas, íntegras, justas e nelas não havia pecado nenhum. Mesmo já tendo lido toda a Bíblia aos 15 anos, resolvi então reler as biografias das pessoas do período bíblico para me sentir mais identificado com elas, pois eram pessoas mais humanas e menos divinizadas.
Algum tempo depois, compreendi que as biografias dos Grandes Heróis da Fé foram fantasiadas pelos biógrafos e biografados que eram, em alguns casos, adeptos do pietismo ou do puritanismo. Sob algo que me parecia mais que uma capa de humilde santidade, eram apresentados como super-homens e semideuses.
As biografias bíblicas são mais confiáveis. Não omitem os deslizes dos homens e mulheres de Deus. Sendo assim, vejamos alguns exemplos, começando pela antiga dispensação da Lei:
1º) Moisés – Mesmo sendo “o homem mais manso que havia sobre a terra” (Nm 12.3) cometeu homicídio contra um egípcio e ocultou o seu cadáver (Ex 2.13).
2º) Davi – Não obstante ser “o homem conforme o coração de Deus” (1Sm 13.14; At 13.22), adulterou com Bate-Seba, que veio a engravidar dele. Querendo encobrir o fato, mandou chamar Urias – casado com ela – que estava no campo de batalha, para que se deitasse com ela e o filho parecesse dele. Como Urias recusou (para se mostrar leal ao rei), Davi o embriagou a fim de persuadi-lo a deitar-se com ela, mas nada conseguiu. Desesperado, manda, pelo próprio Urias, um bilhete para o seu Capitão de Guerra, Joabe, instruindo que colocasse o portador bem à frente da batalha, para que fosse ferido e morto. E assim aconteceu. Mas, segundo o profeta Natã, foi Davi “quem o feriu à espada” (2Sm 12.9). Davi, pois, cometeu adultério e homicídio.
3º) Salomão – O segundo filho de Davi com Bate-Seba, chegou a ser rei sobre Israel e foi o “mais sábio de todos os homens” do seu tempo (1Rs 4.32). Contudo, ao final de sua vida, deixou que “suas mulheres lhe pervertessem o coração para seguir após outros deuses” (1Rs 11.4). Salomão cometeu o pecado da idolatria.
As mulheres, a exemplo dos homens, também pecam. Na genealogia de Jesus, o evangelista São Mateus inclui três mulheres de quem qualquer pessoa de “boa família” faria questão de esconder a sua relação de parentesco com elas. Mas o biógrafo de Jesus não escondeu nada:
1ª) Tamar – (Mt 1.3) que, sentindo-se injustiçada e abandonada pela família do seu falecido marido, resolve cobrar justiça prostituindo-se com o próprio sogro, Judá (Gn 38).
2ª) Raabe – (Mt 1.5) a meretriz que se casou com Salmon, talvez um dos espias a quem Josué enviou a Jericó, quando ficaram hospedado na casa dessa mesma mulher (Josué, capítulos 2 e 6).
3ª) Bate-Seba – (Mt 1.5) “que foi mulher de Urias” e que depois veio a ser esposa de Davi e mãe de Salomão.
Mesmo no período da dispensação da Graça, os primeiros cristãos têm problemas que os seus biógrafos não omitem. O Apóstolo São Pedro, a quem o Senhor Jesus Cristo escolheu para apascentar as suas ovelhas (Jo 21.15-19), cortou, à espada, a orelha de Malco, um dos saldados que fora prender o Mestre. Este mesmo Pedro foi repreendido pelo Apóstolo São Paulo por apresentar um comportamento dúbio (Gl 2.11-14).
Também o Apóstolo São Paulo, talvez o mais importante de todos eles na história da expansão da Igreja, teve uma “tal contenda” com Barnabé “que se apartaram um do outro” (At 15.39). Talvez alguns chamem incapacidade para a convivência: homens santos que não conseguem trabalhar e caminhar juntos.
Finalmente, entre os reformadores também há percalços. Lutero e Zwínglio se dividiram quanto à concepção da Ceia do Senhor. Contudo permitiam que seus grupos perseguissem e até matassem alguns Anabatistas porque estes não concordavam com o batismo de crianças. Até mesmo Calvino, o homem mais erudito da Reforma, foi um dos juízes que condenaram Miguel de Serveto à fogueira por não aceitar a doutrina da Santíssima Trindade.
Porque os biógrafos não mencionam fatos assim dos seus pastores-missionários? Será que isso lhes diminuiria o valor? Quem pode ocultar ou negar a importância dos homens e mulheres da Bíblia ou dos Reformadores do Século XVI?
As Biografias dos Heróis não mencionam seus pecados e, justamente por conta disso, pecam. O ocultamento desses pecados lhes tira o melhor de sua credibilidade, pois negam a possibilidade da Graça que perdoa, restabelece, restaura, reintegra e acolhe. Na verdade, as biografias que escondem os pecados, são biografias sem graça!
¬ Rev. Maurício Amazonas, ose é Presbítero na Diocese do Recife; Vigário-Geral Diocesano, Pároco da Paróquia Anglicana Jardim das Oliveiras, no Arcediagado Sul, em Recife-PE.
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